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janeiro 13, 2007

Falta de Chá no Deserto

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No que já é um dos episódios mais grotescos de sempre no desporto automóvel, o piloto Carlos Sousa teve um ataquinho de raiva e resolveu deixar o seu navegador em pleno deserto. Por mais explicações que surjam, continuo a gargalhar cada vez que penso no incidente.
A TMN, patrocinadora do cromo, é que já o conhecia de ginjeira. Vai daí, teve a prudência de pôr no ar uma promoção em que oferece a cada concorrente a hipótese de se tornar “co-piloto do Carlos Sousa”. O spot acabava de forma presciente: com um montão de malta, presumo que voluntários para a tarefa, empoleirada no tejadilho da morconeta do temperamental Sousa. E serão poucos para o resto da prova, a continuarem as ejecções para as dunas. Mas não sei se a perspectiva de serem deixados no meio de nenhures, entre a Mauritânia e o Fim do Mundo, não irá arrefecer o entusiasmo dos participantes nesta promoção...

janeiro 11, 2007

King of the Road

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No meu trajecto matinal pela Serra de Sintra afora, já me tinha habituado a um frequente mas penoso encontro: um velhinho sentado num daqueles veículos ronceiros que não exigem carta para serem conduzidos. As maquinetas periclitantes a que uma amiga minha chama “papa-reformas”. Dia sim, dia não, lá apanhava o homem a subir e descer encostas sempre à mesma velocidade. Uns estonteantes 25 Km/h; isto numa estrada em que a maioria das ultrapassagens equivale a tentativas de suicídio mal disfarçadas. Mas pronto; fui-me habituando àquele obstáculo móvel e à visão da nuca enrugada do seu condutor.
Hoje, dei de novo com a aparição. Só que o geronte imparável seguia ao volante de um refulgente Fiat Seicento. Automóvel infinitesimal mas “a sério”; prova de que o homem tinha por fim a preciosa carta de condução. Estava capaz de jurar que a sua nuca sacolejava com uma outra altivez, talvez proclamando uma nova cidadania do asfalto.
Infelizmente, uma coisa não mudou: o homem continua a circular à velocidade de sempre: 25 Km/h. Nem mais.

Vira o disco e toca o mesmo

Acabo de ouvir o Rui Castro na TSF, perorando contra a despenalização do aborto. Acreditem ou não, ele saiu-se a páginas tantas com este raciocínio: não vale a pena agora avançar para esta solução radical, quando obra bem mais meritória e eficaz seria investir na educação reprodutiva e sexual.
Ora lembro-me eu muito bem dos senhores que há uns anos se bateram com êxito pela mesma causa a garantirem, com rasgados sorrisos para a TV, que aquela vitória seria o início de um grandioso movimento em prol da… educação reprodutiva e sexual. Deram por isso, nestes 8 anos? Claro que não; de notável, só me vem à ideia uma tal Mariana Cascais, senhora muito bem então com responsabilidades governativas, a garantir que, se dela dependesse, a educação sexual desapareceria dos currículos escolares. E de continuar a ver uns senhores de sotaina a maldizer o preservativo e a pílula.
Bem dizia o Marx que a História tende a repetir-se como farsa.

janeiro 10, 2007

Por fim descobertos os culpados do fiasco iraquiano

No “Público” de hoje, Rui Ramos explica-nos que a ocupação do Iraque não foi bem como imaginávamos. Afinal, as armas terríveis que povoavam os sonhos da menina Rice com cogumelos atómicos não assustaram ninguém. Afinal, os horrores do regime de Saddam não impressionaram George Bush por aí além. E mesmo aquela ideia de montar no Médio-Oriente um glorioso farol da Democracia e da American Way não era para levar a sério.
Na realidade, como nos revela Ramos, o falcão Rumsfeld era sim adepto de uma mera «expedição punitiva». Só que «houve que contar com a célebre “comunidade internacional”» e esta acabou por empurrar os renitentes EUA para o calvário da ocupação.
Bem me parecia que ainda estava para aparecer uma luminária com a derradeira desculpa: a culpa de tudo isto é dos malvados europeus.

PS. Aqui, pode ler-se uma excelente resposta ao artigo de Rui Ramos que lançou as bases para o disparate de hoje.

Os quê de onde?

«Queres de ti lapidar
as rosas sanguíneas
Os rubis do teu útero
quando o tempo se esquece»

Excerto de um poema de Maria Teresa Horta,“Pastora do Corpo” (a sério), integrado na “colectânea de escritos pela despenalização” a lançar hoje pelo Movimento Cidadania e Responsabilidade pelo Sim. Confirma-se que nem os bons escritores se dão bem com os panfletos. E tremo só de imaginar o resto da obra. Entre isto e as declarações do ministro da Saúde, não sei bem qual será o melhor candidato a um pequeno exercício de censura profilática a bem da causa.

janeiro 09, 2007

Já tenho lista de prendas para o próximo Natal

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E pronto. Lá tratou a Apple de revolucionar aquilo a que antes chamávamos telemóveis. E, depois de tanta especulação, a coisa acabou por ficar com o nome esperado: “iPhone”.

Meia-surpresa

Descobri há uns minutos o blogue do Pedro Lomba. Gosto imenso.

Antes de aplicar a graxa, impõe-se uma cuspidelazita

O estilo do bom graxista, como é normal nas criaturas com mais ambição do que coluna vertebral, passa por reverenciar a autoridade e tentar cuspir em quem não se adivinha préstimo. O dono do Portuguese Ass Suckin' julga que chamar a alguém que nem conhece “monte de esterco” revela algo para lá de boçalidade e falta de cabecita. Estará no direito dele. Mas receio que esta cuspidela tenha sido enviada contra o vento; com as consequências que se adivinham.

PS: quanto ao post do Maradona que o Ass Sucker cita, estamos noutro campeonato. A argumentação parece escorreita, faltando-lhe apenas levar em conta um facto incómodo mas decisivo: a maioria das vítimas do “Luz do Sameiro” dormia quando o barco naufragou. E julgo que ninguém será obrigado a usar colete durante o sono. Isto para não especular sobre o mais que provável efeito letal da hipotermia naquelas condições, com ou sem colete. A verdadeira inconsciência terá sido, isso sim, a proximidade excessiva da zona de rebentação.

Assim Não

João Vacas continua a fazer de conta que não percebe onde é que meteu água. Mas eu volto a explicar: foi ao estender a todos os partidários do “Sim” uma declaração que, a corresponder ao que li, é profundamente infeliz: “para os defensores do SIM, o facto de criar uma criança sair mais caro que abortar é razão suficiente para liberalizar o aborto.”
Já está a ver a marosca? Apenas uma pessoa, o tal “cavalheiro careca, de barba e óculos” terá dito esse disparate. Não “os defensores do SIM” em geral, como lhe daria por certo jeito. Aposto que não gostaria de ler algo como “os defensores do NÃO defendem a castidade como único método anticoncepcional aceitável, publicam folhetos com fotos a escorrer sangue, mesmo que sejam de fetos com 24 semanas, mas não se coíbem de mandar as filhinhas para Londres quando o azar reprodutivo bate à porta.” No entanto, trata-se precisamente do seu método: tomar a parte idiota pelo todo, insultando de caminho todos os adversários que não foram tidos nem achados na tirada em apreço. Chama-se a essa técnica da erística “desonestidade intelectual”.

janeiro 08, 2007

Portuguese Ass Suckin'

O Nuno é que os topa bem. Desde o lançamento do Presto que não se via um glutãozinho tão aplicadinho na conversão de nódoas em brancura ilimitada. Qualquer sombra de suspeita lançada sobre o nosso brilhante, impoluto, genial, proactivo e presciente Governo é logo erradicada e apresentada ao papalvo como virtude óbvia e incontornável.
Os voos provavelmente carregados de clientes para umas sessõezitas de tortura só não são vigorosamente denunciados pelo MNE pois este, coitado, apesar de todos os seus cojones, não pode “menosprezar o impacto que isso teria nos tais acordos bilaterais” e a tonta da Ana Gomes é que anda a perturbar a corajosa, astuta e mui confidencial “manobra do governo português”.
A mensagem de Ano Novo de Cavaco é, afinal, um desbragado encómio à actividade de Sócrates, o glorioso timoneiro que já nos colocou no “caminho certo”.
A crise que assola a classe média afinal não existe. A prova? Há muita gente nos centros comerciais.
E por aí afora, num autêntico festival do mais refulgente e militante graxismo.

Este rapaz vai longe, sim senhor. Ainda não lhe arranjaram um emprego na Lusa ou coisa que o valha?

Rall rules!

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A Wikipedia no seu melhor

“There is raely no need to talk about Phish becaus they are a sucky band who has no life. All they are is fat hippies who tihnk they live in the seventies. They probably jsut want to bring ack the peaceful hippy age which sucked cuse hippies suck. While you think they are making music they are actualy eating your babies and protesting about how the government is evil. PSHISH SUCKS there is realy no need to talk about phish because they happen to be the worst band that ever xisted.”
Belíssimo excerto da entrada sobre os Phish.

janeiro 07, 2007

Something entirely different

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But nonetheless enthralling.

janeiro 05, 2007

Sabichões de teclado

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Desconheço se o helicóptero de socorro poderia mesmo ter chegado mais depressa aos náufragos do “Luz do Sameiro”. Mas gostava de saber se os iluminados que interrogam agora os cadáveres sobre o paradeiro dos seus coletes salva-vidas alguma vez tiveram um vestido. Sobretudo enquanto tentavam trabalhar dentro de um barco minúsculo. Pois é.

Onde mora o mal

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Na luta em redor do próximo referendo, a Igreja e seus apaniguados querem à viva força ocupar o trono da virtude imaculada, remetendo todas as demais opiniões para o Inferno. E isto não promete melhorar até dia 11 de Fevereiro, antes pelo contrário. Querem ver com que linhas é que se cose esta malta? Dêem um salto ao “Blogue do Não” e arrepiem-se com um despudorado desfile de aldrabices, calúnias, falácias e omissões. Tudo coisas que nunca imaginaríamos em criaturas tão puras e virtuosas.
Comecem por ler o que um tal Vacas escreve: “para os defensores do SIM, o facto de criar uma criança sair mais caro que abortar é razão suficiente para liberalizar o aborto. É imbatível esta lógica. E arrepiante.” Arrepiante é sim alguém querer fazer passar este asco por uma ideia. Porque se não dedica a criatura a pensar antes de escrever? Ou, pelo menos, que trate de citar quem defenderia tal absurdo. Mas claro que é mais fácil atribuir ao inimigo (generalizando, claro) ideias monstruosas do que explanar argumentos próprios.
Depois, outra luminária, a assinar “Ferreira Martins”, garante-nos, com a solenidade de um la Palice involuntariamente cómico, que “A vida começa no princípio”, esquecendo-se de nos explicar se o espermatozóide e o óvulo estão falecidos ou coisa que o valha, no momento da concepção. Que eu saiba, “vida” já existe bem antes de o João e a Maria decidirem coisar.
Há também espaço para as descobertas fulminantes, como esta de Francisco Mendes da Silva: “o Ministro Correia de Campos assegurou que em nenhum caso o SNS efectuará um aborto a uma mulher que não se queira identificar”. Fantástico: quem diria que é preciso um documento de utente para usar o SNS?
A única coisa que me consola nesta parada de monstros, de mentiras flagrantes e de má-educação é que ninguém parece inclinado a dar-lhes muita atenção. Talvez seja mesmo uma boa forma de lidar com o mal (sim, com minúscula, que isto não passa de gente chunga e pequenina).

janeiro 02, 2007

Sem me querer armar em JPC...


Como se vê, julguei que seria boa ideia começar o ano dedicando algum tempo às coisas do espírito. Olhem que o teledisco que inspirou esta paródia sempre tem a vantagem de incluir a Michelle Pfeiffer. E a coisa valeu a Coolio um Grammy em 95. Ecos do original de Stevie Wonder, Pastime Paradise, andam, bem audíveis, também por estas bandas.

dezembro 30, 2006

Vamos ter um Ano Novo em grande

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Pelo menos, se metade disto acontecer.

dezembro 22, 2006

Surdez

Serei eu o único a pensar neste senhor sempre que toca uma peça de Lopes Graça na rádio?

Tropismos

É da minha vista ou Maria José Nogueira Pinto, sempre à cata de câmaras que a apanhem de dedo em riste e pose grave a tentar fazer passar slogans por ideias, está a transformar-se na Odete Santos da direita?

dezembro 21, 2006

Tradução com rabo de fora

Vem o “Público” de hoje com um artigo sobre o desenlace da batalha legal que tem oposto o antigo organista dos Procol Harum aos declarados autores do vetusto hit “A Whiter Shade of Pale”.
A linhas tantas do luso artigo, surge a intrigante frase “cujo acompanhamento se baseia em vários trabalhos de Johann Sebastian Bach’s works, incluindo Air on a G String”. Assim mesmo, com a entrada intempestiva de palavras inglesas e o adeus ao solfejo. Seguindo pistas do Google, não foi difícil dar com este artigo e, sobretudo, com este. Ah; a prosa em idioma misto está assinada por um jornalista português.

dezembro 17, 2006

Brincar à política

O MIC de Manuel Alegre vai proceder a um referendo interno sobre o aborto. Calculo que uma vitória do "não" implique a dissolução do patusco movimento.

dezembro 16, 2006

O Pai Natal existe e é um sociopata

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Pequenas lambretas que tomam o freio nos dentes. Dardos desmesurados que perfuram crânios. Luzes de discoteca incendiárias, mísseis sufocantes, bonecos canibais (a sério!), Barbies voadoras com instintos assassinos (confesso que dei uma destas à minha filha). E, com um brilho muito próprio, o “Laboratório de Energia Atómica”, lançado em 1951, que devia ter como objectivo preparar a miudagem americana para a III Guerra Mundial: incluía quatro amostras de Urânio 238, um contador Geiger e vários adereços indispensáveis ao cientista em início de carreira. Em caso de acidente, os infantes vitimados sempre poderiam ter uso como candeeiros.
Esta lista dos brinquedos mais marados da história merece consulta atenta. E vai dar-vos vontade de examinar com outros olhos as cartas com os pedidos ao Pai Natal dos vossos herdeiros.

dezembro 15, 2006

Retalhos da vida de um publicitário

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Numa só primeira página do “Público”, notícias de um calote já quase esquecido e de uma campanha que ainda agora está a começar...

dezembro 13, 2006

O discurso de aceitação mais tocante que já leram

Diz o Re21: "Esse tal luis rainha, difamou-me,caluniou-me e ofendeu-me publicamente a minha pessoa num post merdoso que colocou no pasquim onde o deixam editar posts, é um acto grave que esse luis rainha cometeu.E ainda por cima tem a lata de aqui me vir ofender pessoalmente mais uma vez, é gente que não presta.E como tem feito aqui várias vezes, não só me ofende a mim como ofende as pessoas que aqui comentam, sim, é um dos "vómitos" que só tentam denegrir e difamar a minha pessoa e tentar destruir o meu blog, são dezenas os comentários provocatórios à minha pessoa que esse "vómito" aqui tem escrito ao longo da existência desta versão do meu blog e da anterior versão. Update:Tania e restantes leitores este tal luis rainha escreveu um post precisamente igual a este num pasquim de edição electrónica já extinto onde difamava, caluniava e ofendia outras pessoas, post esse considerado de "merdoso" por muita gente e o que levou ao afastamento de muitos que visitavam esse extinto pasquim, só para dar a conhecer um pouco o ser que é luis rainha. Mas há mais, muito mais."

dezembro 11, 2006

Os grandes desvencedores de 2006!

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Antes de zarpar rumo a paisagens mais condizentes com a quadra, onde me esperam quilómetros de neve fresca e matilhas de capitosas instrutoras de esqui, tenho ainda uma missão a concluir: anunciar os resultados do blogoconcurso que aqui lancei há uns tempos. Adicionando as minhas escolhas pessoais a sugestões recebidas pelos mais variados meios, lá consegui chegar a uma lista definitiva de premiados. Isto para não ficar muito atrás destes senhores, que até tiveram a gentileza de nos colocar em 4.º lugar já não sei bem de quê.
Vamos lá então passar em revista as áreas de (in)excelência agora distinguidas:

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dezembro 10, 2006

Pinochet e o milagre com pés de barro

Augusto Pinochet lá faleceu, depois de anos de cuecas com a morte, incluindo o miraculoso sprint da cadeira de rodas com que culminou a sua fuga à justiça inglesa. Por mim, só tenho pena que ele nunca tenha sido julgado, no Chile ou em terra alheia, pelos incontáveis crimes cometidos em seu nome e com seu conhecimento.
Calculo que a esta hora já tenham surgido alguns obituários menos sombrios, sempre salientando as maravilhas do dito "milagre económico chileno", que terá ocorrido sob a batuta dos Chicago Boys de Friedman. Uma nova versão dos comboios a horas dos fascistas, portanto. O pior é que, como o mito da pontualidade italiana sob Mussolini, trata-se de uma historieta com pinta de fábula mal contada. Agora, urge expor o outro lado da questão, não vá o tal “milagre” solidificar poleiro na hagiografia emergente de S. Pinochet, revoltoso traiçoeiro e ditador sanguinário já antes recauchutado em avozinho inofensivo e pai da pátria chilena.
Há quase três anos, mantive uma discussão interessante com o hoje blasfemo JCD. O tema foi o tal “milagre económico”. Julgo que pouco tenho a acrescer aos meus argumentos de então, que partiram deste artigo de um colunista do Observer, Greg Palast. É o que se segue.

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novembro 27, 2006

Eles têm o 31, nós estamos feitos num 8

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Aí está o que promete ser mais um excelente e animado blogue colectivo de direita: o "31 da Armada", onde pontifica o nosso marialva preferido, o Rodrigo Moita de Deus. Acrescentemo-lo à blogroll mental, ao lado de coisas dignas de nota como o "Blasfémias" e o "Insurgente" (este com a ressalva de alguns reforços recentes um pouco mais fracos). Assim vai a direita pela blogosfera: bem. Bem organizada. Bem dinâmica. Bem interessante.
E a esquerda? Para lá de um sorumbático e sempre sério "5 dias", é o deserto. Ou impera a simplicidade sem risco, ou o panfletarismo mais ou menos previsível, ou o mainstream pomposo que já não interessa a ninguém. Nem a coutada da Cultura serve para garantir animação à malta. Ná. Por estas bandas não há ideias novas, não se lobriga provocação inteligente, murchou a militância consistente e prolongada.
Reparem que não incluo a 100% o "Aspirina B" na funesta procissão: nunca aqui almejámos a unanimidade ideológica e sempre nos orgulhámos da nossa polissemia. Mas isso não nos imunizou contra a maleita geral: também aqui impera a acédia, também daqui fugiu a vitalidade, a discussão, e até a alegria que, de acordo com o mito, devia contaminar as hostes esquerdistas a tempo inteiro.
Sim; eu sei que é mais fácil angariar polémicas quando se tem ideias pour épater le bourgeois em barda, como a compra e venda de votos ou a privatização do ar. Ou quando se conta com clowns finórios como o Pedro Arroja, capaz de se atrever, sem medo do ridículo, a ressuscitar a ideia de que os ingleses só chocaram ex-colónias civilizadas e democráticas, esquecendo a caterva de casos mais sinistros, do Afeganistão ao Zimbabué.
Não sei se falta ao lado esquerdo da blogosfera um ou dois Arrojas; espero que não. Talvez seja apenas uma questão de míngua dos sombrios "financiamentos próprios cuja origem é desconhecida" agora denunciados, com algum veneno teleguiado, pelo Abrupto. Mas certo, certo é que há qualquer coisa que não funciona por aqui. Querem mais uma prova? No dia em que o "31 da Armada" se lançou no meio de grande festança, estava o pessoal deste estaminé ocupado a... esquecer o primeiro aniversário do blogue. Coisas de velhos.

novembro 21, 2006

"Quem se habituou a viver entre os gumes do desespero não lhes escapa pelo mero atenuamento das suas causas. Por muito que o Sol brilhe, o seu vulto permanece escuro, a sua sombra continua a adensar-se. Um volume enorme que cai no mar sob o nadador, arrastando-o num torvelinho irresistível. Até que ele já não distingue o que é cima e o que é baixo. Até que já nem lhe parece importante distinguir. Como se o salto verdadeiro tivesse sido dado muito antes de os seus pés deixarem a ponte; como se a balística do desespero nada tivesse a ver com a gravidade, ignorando o que jaz no lado de fora da vida. O centro está antes em algo que lhe cresce sem cessar dentro do peito, mesmo que privado das antigas raízes de acasos biográficos e outras tragédias menores. Osíris entrou de livre vontade no seu caixão. Pressentiu ali as suas medidas, precisas, magnéticas, predestinadas e letais."

Anselm Kiefer, "Osiris und Isis", 1985-1987

Escolha difícil

Pede-me o Nuno Ramos de Almeida que comunique aos nossos leitores mais "criativos" que na próxima quinta-feira o esquerda.net "promove uma reunião para trocar algumas ideias sobre a campanha da despenalização da interrupção voluntária da gravidez. O encontro será na quinta-feira às 21.30 na Rua Febo Moniz número 13, R/C Esquerdo."
Infelizmente, a malta mais brilhante e criativa vai ter de estar no Café Suave, a partir das 22:30, para participar no lançamento do melhor livro de BD do ano.

Da tragédia do desperdício

"I am already a half-starving man. To preserve my brains I want food and this is now my first consideration."

Carta de Srinivasa Ramanujan para G. H. Hardy, 1913

Já se entende para que queria Alberto João mais dinheiro

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A coisa chegou a este ponto. Já nem se sentem na obrigação de fazer de conta que aquilo não é uma selva.

(Boneco gamado ao Jorge Mateus)

novembro 20, 2006

Isto de ser eterno e omnipotente já não é como antigamente

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Ahura Mazda — R.I.P.? Ao que parece, o conhecido mantra das entidades religiosas sobre o seu próprio porvir — «já cá andamos há dois mil anos, preparem-se para nos aturar por muito mais tempo» — é capaz de não dar assim tantas garantias. O Zoroastrismo, religião milenar que já contou com milhões de seguidores, encontra-se à beira da extinção . Mais interessante ainda é que parece ter sido o sucesso individual dos crentes, e as suas qualidades humanas, a ditar o fim desta religião.
Pode ser que a coisa se pegue às restantes pragas que têm assolado a Humanidade desde a sua mais tenra infância. Sonhar não custa. Haverá coisa melhor de imaginar do que um mundo livre de religiões organizadas?

novembro 17, 2006

Uma modesta proposta de blogoconcurso

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Com a aproximação do fim do ano, lá começam os "Prémios", os "Óscares" e demais "Troféus Tanit", todos entretidos a puxar o lustro à vaidade da blogosfera. Nada a obstar, que a malta tem de enganar as horas de maior tédio. Mas podíamos variar um bocadinho, este ano: elegendo, por exemplo, os blogues mais merdosos da lusa pátria. A coisa poderia até distribuir troféus sectoriais, prémios de carreira, incentivos à cessação imediata de actividade, etc.
Sugiro a seguinte lista de áreas de (in)excelência a distinguir:


1- O mais manhoso
2- O mais sobreavaliado
3- O mais feio
4- O mais ensimesmado
5- A escrita mais pomposa
6- O mais alienado
7- Os piores pontapés no Português
8- O mais ressabiado
9- O mais irritante
10- O pior dos piores tout court: a cereja bichosa no topo do bolo podre

Alguém quer votar?

Liberal, sim, mas só se a tua liberdade não me ofender

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Pedro Arroja continua impulsionado pelas místicas visões que já o levaram a declarar Deus imprescindível à civilização e Cristo ao liberalismo. Agora, surge com mais um "original e importante" argumento (de acordo com imparcial avaliação do próprio), desta vez sobre o referendo ao aborto.
Ele começa por fazer de conta que não sabe que o primeira consulta não foi vinculativa: «o mais provável é que outros referendos se sigam até que ganhe, finalmente, o "Sim".» Mas o melhor está para vir. Quando pensávamos nós que uma situação despótica é aquela em que o Estado, esse odiado monstro, decide pelas pessoas nestes assuntos de vida e de morte, eis que o arrojado profeta do Blasfémias nos esclarece, fulminante: «O referendo ao aborto é, provavelmente, uma das mais insidiosas manifestações do despotismo da multidão sobre a individualidade humana que Portugal conheceu desde que vive em democracia.» Qual o medo de Arroja? Simples: «não é senão de esperar que, com o decorrer do tempo, esse limite (para a realização da IVG) seja alargado, primeiro para doze semanas, depois para quinze, até chegar a nove meses.» Ou seja, o mal não é do referendo mas sim de imaginárias decisões futuras que só existem neste delírio acossado.
Mas «a questão seguinte, ainda ela eminentemente racional, será a de perguntar se certas vidas humanas (v.g., deficientes) valem a pena ser vividas.» Claro está que a resposta, para o profeta da desgraça será, «em muitos casos, não». Aqui, ele faz de conta que não é decidido, todos os dias, terminar vidas que persistem agarradas a máquinas, abortar fetos com deficiências profundas, desligar comas sem remissão. Isto sem que se ouça grande resistência nem da Igreja nem dos seus voluntariosos porta-vozes de ocasião. «Deliberar sobre o momento em que ela (a vida) termina» é hoje coisa corriqueira: a prolongada falta de actividade coerente num cérebro humano já basta para declarar alguém morto; só não entendo porque é que o mesmo critério não serve para definir o ponto do crescimento de um feto em que a vida humana tem real início.
Não adianta muito, como o próprio Arroja admite, discutir tais assuntos com quem os analisa com a Fé e não com a Razão; só estranho que gente tão amiga da liberdade não perceba quão despótico é tentar impor à vida dos outros os suas baias morais e religiosas.

PS: olhem que não estão em causa meros assuntos de "correntes políticas", como Arroja insinua. Veja-se a excelente resposta do blasfemo Rui.

Mensagens satânicas do banco da Opus Dei

Num dos horrendos anúncios da campanha mais aparvalhada da década, com o comediante Bruno Nogueira, é bem audível a palavra "foda-se", soando de trás para a frente. Prevejo para breve uma mensagem de Natal do S. Presidente do Millennium com banda sonora dos Black Sabbath.

Por fim, um culpado de Portugal

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Há quanto tempo anda meio Portugal em busca de um responsável pelos nossos persistentes males colectivos? Culpados provisórios já foram recenseados nas elites, no sistema de ensino, nos fundadores do país, no clima luso — brando demais para suscitar temperamentos empreendedores, diz-se —, no excesso de vinho, nas ditaduras que nos assolaram, no 25 de Abril... sei lá.
Ontem, graças a uma dica do nosso leitor py, relembrei-me de uma suspeita antiga. Que aponta o dedo acusador ao mais remoto dos suspeitos: os patuscos mas obsoletos Neandertais.
Já leram, por certo, algum apontamento sobre o famoso "menino do Lapedo", criatura falecida há uns 25.000 anos, em parte humano moderno mas com alguns traços de neandertal. Seria, de acordo com o vociferante "dono" da descoberta, João Zilhão, prova de grandes poucas-vergonhas entre as duas espécies, o que poderia indicar que toda a Humanidade era afinal produto de miscigenações manhosas.
Nada disso. Ao que parece, trata-se de hipótese improvável. Quando muito, só em locais seleccionados é que a funesta misturada poderá ter ocorrido. De acordo com tal hipótese, os únicos berços deste passo atrás na Evolução seriam a Roménia, a Morávia e... Portugal.
Está tudo explicado. Enquanto o Homem Moderno evoluiu alegre rumo à Civilização, à Cultura, à Arte, ao Progresso, os pobres mestiços permaneceram atolados na lama primeva, presos pelos seus toscos genes à mais pesada das heranças. Assim, lá ficámos nós, os tristes e isolados portugueses, entregues ao atraso, à acédia, à irresponsabilidade, à estupidez inata dos nossos cérebros atarracados e inviáveis.
Eu bem desconfiava que Portugal devia ter explicação.

novembro 15, 2006

Mais um momento Braz & Braz

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A Má Criação tem o prazer de vos apresentar "Dias Eléctricos", uma obra de Banda Desenhada construída de acordo com um dispositivo algo original. Um só tema, um só argumentista, e sete desenhadores, entre veteranos como João Fazenda ou Jorge Mateus, jovens promessas e estreantes absolutos.
A electricidade é o ponto de partida para as oito histórias que preenchem estes dias; os traços e as formas de contar, radicalmente diversos entre si, representam algumas das rotas que a BD nacional hoje percorre. São 120 electrificantes páginas com capa dura e um preço quase ridículo: apenas 10 euricos!

Podem aqui aceder a uma página de cada desenhador, em PDF:
Armando Lopes
Daniel Lima
Susana Carvalhinhos
Jorge Mateus
Frederico Rogeiro
Tiago Albuquerque
João Fazenda

Contando com apoio da REN, "Dias Eléctricos" promete vir a ser o início de uma colecção de recolhas similares. Assim queira sua majestade, o Mercado (um pouco de graxa aos nossos abonados amigos liberais).

Miguel Sousa Tavares sem rede

Talvez escaldado pela confusão em redor do "colorido narrativo" que foi pescar a obra alheia, Sousa Tavares lançou-se, na sua crónica do "Expresso", num arriscado voo a solo, sem consultar fontes. E, ao que parece, estatelou-se contra os factos.
Foi o Joaquim Vieira, no indispensável Observatório de Imprensa, que deu pela coisa:
«"A primeira vez que fui aos Estados Unidos foi em 1976, o ano do Bicentennial, estava o país inteiro eufórico com os seus duzentos anos de independência", escreve hoje Miguel Sousa Tavares no "Expresso", para acrescentar mais à frente: "E cheguei a tempo de assistir na televisão aos impiedosos interrogatórios da comissão parlamentar de inquérito ao Watergate - autêntica lição prática do que é o sistema de balança de poderes e que culminaria, meses mais tarde, com a renúncia do pantomineiro Richard Nixon". Ora, o presidente Nixon resignou devido ao Watergate, é certo, mas em 1974, pelo que alguém do "Expresso" devia ter alertado o seu articulista em relação a uma memória algo confusa.»
Mais coisas que talvez uma consulta atempada ao Google tivesse esclarecido: «que não é "Ali Burton" mas sim "Halliburton", que Rumsfeld não é (nem nunca foi) secretário de Estado mas sim da Defesa, que a Convenção de Genebra não é centenária mas sim cinquentenária e que os EUA não foram "o único país que votou nas Nações Unidas contra o comércio livre de armas de guerra", mas sim o único que votou contra o controlo desse comércio (ou seja, a favor do tal comércio livre de armas de guerra).»
Como não li a coluna referida, não sei se chegava a acertar em alguma coisa.

PS: já li a coisa e posso confirmar que há alguns acertos. Julgo, por exemplo, que o nome do colunista saiu sem erros.


novembro 14, 2006

À êga!

Depois de horas às voltas com comentários em triplicado, entradas que não entram, ficheiros que não se actualizam e outras anomalias, declaro-me oficialmente farto. Alguém que me avise quando o weblog, com ou sem Balsemão, voltar a funcionar de forma decente. Até lá, estou em greve.

À atenção de quem imaginou que Cavaco poderia ser um presidente apresentável

Durante a presidencial visita ao Uruguai, ninguém se lembrou de abordar temas económicos, área em que Cavaco teria imenso a dar ao mundo, de acordo com os seus apoiantes. Pior ainda foi que se lembraram de falar de História, descrevendo, por exemplo, a fundação de Colónia do Sacramento por portugueses, ainda hoje reflectida no aparecimento de velhas moedas lusas nas revoltas correntes do La Plata. Resposta profunda de Cavaco Silva, após as delongadas explicações: "ai, este rio é tão castanho!". O que vale é que a primeira-dama correu de imediato em seu auxílio: "e tão violento!" Isto entre outras aventuras, que meteram, por exemplo, não reconhecer a indumentária de um paisano fardado de soldado português do século XVIII e alguns discursos proferidos em fluente portunhol.
Mas, ao fim de contas, quem é que precisa de cultura geral quando sabe de Economia?

Só para maiores (de 90 anos, ou coisa que o valha)

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Descubro que um novo e trepidante êxito editorial acaba de emigrar da blogosfera para o mundo real. Mais concretamente, uma coisa chamada "O meu ponto G", oriunda do blogue homónimo.
Encurtando a crítica, que não ha tempo nem pachorra para muito, aquilo mete medo. Uma escrita que gostava de ser erótica mas que se fica pela brejeirice, prosas clonadas dos "contos" da revista "Maria", lugares-comuns pegajosos repetidos até à exaustão. Rabos "empinados" há 5, só na página de entrada. "Paus" são 10, invariavelmente "duros". "Ratas" e "ratinhas" formam uma matilha com uma dúzia de alegres convivas.
Aqui vos deixo exemplos um pouco mais extensos, para poderem medir a originalidade e a finura da prosa: "Ao sair de dentro de mim, Felino, os nossos fluidos escorreram pelas minhas pernas, obrigando-me a correr para a casa de banho." "E chuparei cada pedaço dessa carne só minha, apertá-la-ei nos meus lábios e senti-la-ei a palpitar dentro da minha boca, enquanto engulo o teu leitinho divinal"; "abraçaste-me carinhosamente e assim ficamos, de pé, olhando-nos ao espelho e vendo o lindo casal que formamos…"
"Lindo" é como quem diz. Estamos em presença de um verdadeiro tratado de porno-chanchada, repetitivo, foleiro, piroso, intragável. "O meu ponto G" tenta com vigor enjoar-nos para as delícias do sexo; julgo mesmo que deveria ser leitura obrigatória em seminários e outros locais onde a cópula seja veementemente desencorajada.
Mas quem se lembrou de gastar bom papel neste aglomerado incoerente de paus, ratas e fluidos? Jorge Reis-Sá. Precisamente: o mesmo editor que há uns tempos clamava pelo regresso do "sublime" à poesia lusa, bramando contra quem "a retém nos urinóis". Ao que parece, a prosa não merece cuidados similares: pode bem ficar presa em boudoirs manhosos.

Imagens (familiares) no Beco

Já por aqui tinha mencionado a coisa. Com direito a amostra grátis e tudo. Agora, a Sara Figueiredo Costa teve a generosidade de escrever sobre os "Dias Eléctricos", no sempre animado Beco das Imagens. Se a modéstia não mo proíbisse, recomendava-vos a visita.

Estás bem, Zé Mário?

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É que continuamos à espera de novas da lasciva espanhola que se metamorfoseou em lúbrica italiana, da mancha do Miró, do teu Katrina escaquístico, etc.

Estás bem, Fernando?

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É que a malta começa a ficar preocupada...

novembro 13, 2006

Mas como? Como é que um tipo destes chega sequer a presidente da junta?

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Santana Lopes continua a efabular cabalas, conspirações e outras malfeitorias. E, supremo exercício de autismo, continua convencido de que Sampaio “fez mal” ao país quando nos livrou do “menino guerreiro” e sua turba de comediantes involuntários. Seria simpático que Santana, como qualquer cadáver político que se preze, se dedicasse mais à decomposição e menos à composição destas rábulas grotescas.

24 meses depois

Há precisamente 2 anos, escrevi isto. Hoje acho-me incapaz de deixar à vista dos demais prosas assim. Não que tenha perdido qualidades enquanto pai deliquescente e sempre babado. Mas perdi por certo qualidades como blogger; a começar pela candura e pela falta de pudor.
Enfim, pode ser que o mau-génio acrescido compense.

novembro 10, 2006

Desculpem lá, mas não há Gato Fedorento que chegue perto disto

novembro 09, 2006

Momento Braz & Braz

Nenhum animal tem um território tão bem demarcado na nossa imaginação colectiva como o Lobo. O caçador, o habitante de mitos e lendas, mas também o animal acuado, perseguido e deixado à beira da extinção. Todas estas facetas do Lobo surgem em Lobos em Portugal, a última obra de Paulo Caetano e do biólogo Joaquim Pedro Ferreira.
Entre os dados científicos e os ecos de histórias fantásticas que ainda são sussurradas de geração em geração, passado pelos relatos de caçadas antigas e modernas em Portugal, este livro apresenta-nos um retrato preciso mas apaixonado da vida deste predador soberbo nas nossas serranias, ao longo do séculos.
São mais de 230 páginas, ilustradas por centenas de fotografias impressionantes e ainda por vários desenhos de Jorge Mateus. Descrevendo e mostrando um animal de que, afinal, sabemos tão pouco. Para citar o prefácio de Clara Pinto Correia, Lobos em Portugal "é um manancial inesgotável de informação, uma festa para os olhos, e não raras vezes, pois essa é a magia da matéria-prima em análise, quase um obra poética de inspiração luminosa."

PS: Este título da fenomenal editora Má Criação, segundo volume de uma colecção iniciada em 2005 com "Abutres de Portugal e Espanha", está já disponível nas livrarias pelo preço quase simbólico de 40 euricos.

novembro 08, 2006

A imprensa portuguesa tem um poder do caraças (2)

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George W. Bush: mais um que se deixou desmoralizar pelos "comentários anti-Bush da nossa comunicação social". "There were different factors that determined the outcome of different races, but no question, Iraq was on people's minds". Ele que espere pela pancada que o Insurgente lhe vai dar à conta de tanta ignorância.

A imprensa portuguesa tem um poder do caraças

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Donald Rumsfeld: mais um que se deixou desmoralizar pelos "comentários anti-Bush da nossa comunicação social".

Uma ponte sem outra margem

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Durante quase todo o ano de 2004, o documentarista Eric Steel filmou a Golden Gate Bridge, em S. Francisco, não perdendo um minuto de luz diurna. E capturando 23 dos 24 suicídios que ali ocorreram.
O resultado é "The Bridge", um documentário já estreado no Tribeca Film Festival e fonte de polémica instantânea. Além das imagens de mergulhos para a morte, Steel integrou na sua obra entrevistas com familiares de suicidas, autores de tentativas frustradas e até mesmo sobreviventes à queda de 67 metros.
Esta icónica ponte, a mais longa do seu tipo, é uma das obras de engenharia mais famosas do mundo. A sua beleza suspensa atrai turistas, produtores de posters... e gente em busca de morte rápida e certa. Trata-se do local em todo o planeta onde ocorrem mais suicídios. Em média, cada quinzena traz mais um salto letal; a contagem oficial foi interrompida em 1995, pouco antes do milhar, para que não eclodisse uma corrida à celebridade póstuma (não resultou, diga-se: Eric Atkinson, de 23 anos, foi o infeliz vencedor).
A polémica surgiu, para além do óbvio choque de ver mortes filmadas como se num documentário sobre espécies em vias de extinção, porque o autor falseou a descrição da sua obra ao pedir as licenças necessárias. Para impedir que as notícias das filmagens atraíssem suicidas em busca de estrelato, defendeu-se Steel; evitando recusas mais que certas, contrapõem os críticos. Enfim, teremos de ver o filme para decidir se terá valido a pena mentir para o poder realizar. Note-se entretanto que a equipa de filmagens salvou várias pessoas, alertando em diversas ocasiões as forças de segurança para a presença na ponte de transeuntes suspeitos.
Ao procurar informações sobre o documentário, dei com este fabuloso artigo de Tad Friend, na New Yorker. Só depois descobri que tinha sido a inspiração inicial de Eric Steel. Leiam, que vale bem a pena. A prosa oscila entre o informativo e o pungente, como esta passagem de uma carta de suicídio: "vou caminhar até à ponte. Se uma pessoa me sorrir pelo caminho, não salto". Mas o testemunho mais relevante para quem esteja a contemplar uma saída antecipada deste mundo é-nos dado por um sobrevivente à queda: "percebi naquele instante que tudo na minha vida que eu via como não tendo remédio era totalmente remediável — excepto o salto que tinha acabado de dar". Acabou por ter direito a uma segunda oportunidade; algo que nenhuma das "estrelas" involuntárias de "The Bridge" conseguiu.


PS: Este filme sempre serviu para ajudar uma boa causa: depois de anos e anos de discussão, parece que vai por fim ser instalada na ponte uma barreira anti-suicídio.

A estes, a tristeza dá-lhes para o delírio

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Quer perceber o que aconteceu nas eleições americanas? Esqueça o NY Times, a CNN, etc. O Insurgente é que sabe: contrariamente ao que os "comentários anti-Bush da nossa comunicação social" insinuam, o verdadeiro culpado da hecatombe republicana foi Mark Foley, não a Administração de George Bush.
Ora passa-se que a Fox News, antes tida como um baluarte dos apoiantes de Bush, deve ter sido comprada pelo Dr. Pinto Balsemão. É que até a direitista emissora, também conhecida como "Faux News", consegue abrir os olhos para esta realidade: «The 2006 midterm elections were largely a referendum on the Bush administration and the war in Iraq»; «The Congressional elections came down to the war in Iraq, the president who took the country there and an electorate looking for change»; «Those who support the president and the war in Iraq largely voted for the Republicans in their district. Those who oppose the war or who have an unfavorable view of the president typically voted for the Democrat.»
Poder-se-ia ser mais claro? Naturalmente, ninguém diz que cada voto nos Democratas foi uma vergastada em Bush; mas não adianta tapar o Sol com peneira tão esburacada e miserável.

PS: apesar de o nome de Mark Foley ainda constar nos boletins de voto, o seu substituto só perdeu por uma unha negra. Ao que parece, nem na sua circunscrição o "efeito Foley" foi tão devastador como o Insurgente o pinta...

novembro 06, 2006

Há nomes que são todo um programa

"Como o Cinema era belo". O título do presente ciclo de Cinema da Gulbenkian é transparente. "Era", garante-nos o director da Cinemateca, autor da selecção de 50 grandes filmes que agora ilumina o Grande Auditório da nossa bem-amada Fundação.
Mesmo assim, lá se infiltrou na lista uma magra dezena de obras posteriores à década de 60. Seriam talvez menos, se a Orquestra Gulbenkian não estivesse sem tempo para animar projecções de filmes mudos. No entanto, a falta de música ao vivo poderia ter sido facilmente ultrapassada. Bastaria para tal um guitarrista e uma voz. A banda sonora, bem ao estilo de Bénard da Costa, seria apenas esta, claro: "Ó tempo, volta para trás".

Numa eleição moderna, a campanha pode decorrer até no outro lado do mundo

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Saddam foi condenado à forca. Bush rejubila. Esta tão oportuna acção de campanha virá ainda a tempo?

Bem-aventurados os homens de Fé...

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O insurgente Helder acaba de deixar numa das nossas caixas de comentários uma divertida e reveladora pregação: "Se você comparar a acção de Tony Blair ou da Greenpeace com a da Toyota, fácilmente concluirá que a segunda faz muito mais pelos objectivos de redução de emissões que os primeiros. E isso tem um nome: capitalismo."
A Fé nos mercados e nas empresas há-de levar esta malta ao Céu. Mas descamba por vezes numa comicidade irresistível.
O santo Helder está mesmo convencido de que colossos industriais como a Toyota se dão ao trabalho de investigar novas tecnologias e alterar processos de fabrico, criando produtos menos nocivos para o Ambiente... apenas movidos pela bondade intrínseca dessa acção! Já encontrei testemunhas de Jeová menos crédulas em milagres e outras divinas intervenções.
Se não receasse abalar profundamente as fundações mágicas do reino de fantasia do bom Helder, talvez lhe explicasse que está a ver tudo ao contrário: os fabricantes de automóveis fabricam carros cada vez menos poluentes em resposta aos regulamentos cada vez mais exigentes que alguns países vão adoptando. E preparam-se já para as restrições ainda mais draconianas que se adivinham ao virar da esquina. Quanto aos governos, como o de Tony Blair, grande parte da sua motivação para intervir neste campo vem da pressão da opinião pública; e aqui fica explicado o papel que organizações como a Greenpeace (por sinistras que sejam) têm nesta tendência.

Mas não digam nada ao Helder. Deixem-no continuar emigrado no seu lindo mundo, onde a indústria automóvel acolhe com um sorriso estas imposições (como já o fez quanto aos airbags, por exemplo), os produtores de guloseimas protegem a saúde das crianças e as tabaqueiras reduzem de moto próprio a nicotina nos seus produtos e ainda os decoram com simpáticos avisos. Tudo para bem do Homem e do seu Deus Único, o Mercado.

novembro 05, 2006

Está morto? Era terrorista

Para Israel, há uma forma infalível de definir um terrorista: é aquele que as suas forças amadas matam. Seja criança, ancião ou simplesmente transeunte com azar. Se morreu, só podia andar de foguete às costas ou de bomba no colete. Isto é o que se infere das recentes declarações de Ehud Olmert ao parlamento israelita, gabando-se dos “300 terroristas” eliminados em Gaza nos últimos três meses. Ora, segundo a organização israelita de direitos humanos B’Tselem, 155 das 294 vítimas palestinianas não eram combatentes, incluindo 61 crianças.
Mas se morreram, alguma devem ter feito, os malandros. Assim o garante Olmert. Eis uma excelente forma de evitar problemas morais, inquéritos tontos e cuidados em excesso na hora de premir o gatilho.
Quando lhe impingirem de novo o cântico “apoio Israel porque é uma democracia como nós”, pergunte que outra democracia é que assumiria, nos dias que correm, uma postura destas. Talvez a Rússia, digo eu.

Já que este é o dia do Senhor...

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...e para que não digam que o ateísmo campeia por aqui sem freio, recomendamos uma visita à Pastoral Portuguesa. Isto apesar de estarmos em condições de confirmar que nada nos move contra a linda cidade de Pisa (mas preferimos San Narciso, claro).

novembro 04, 2006

EPC e a Blogosfera

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Eduardo Prado Coelho conseguiu escavar um pequeno mas notório nicho nos media tradicionais muito graças a questões de forma, não de substância. No “Público”, as suas colunas quase diárias usam um registo peculiar, onde referências à actualidade se cruzam com alguns morceaux choisis de cultura contemporânea num embrulho estilístico (algo devedor de Jean Baudrillard) semi-poético, semi-factual.
Olhem à vossa volta: não é esta uma boa definição da prosa que encontramos em muitos dos nossos blogues? E, suprema ofensa, tudo à borla, tudo desprovido da chancela do “grande autor”, tudo oferecido numa espécie de feira chunga onde nada é eterno nem merecedor de avenças. Hoje em dia, bastam uns cliques para se encontrar a mesma mescla de observação e reflexão, os mesmos ademanes floridos... ainda por cima com uma enorme variedade de autores e temas. Como é que o EPC poderia dar as boas-vindas a semelhante desgraça?
Esta reacção adversa à inopinada subalternização tem mais casos célebres: Sousa Tavares, com o seu estilo agressivo e de denúncia desabrida, encontra com facilidade dúzias de sósias por esta blogosfera afora; vai daí, trata de declarar tonitruante que a Internet lhe interessa “zero”. Vasco Pulido Valente é um exemplo antípoda: a sua prosa não é mera fancaria cromada, é mesmo the real deal, brilhante, bem recheada, inconfundível.
Em suma: a súbita ira de EPC não é o uivo do dinossauro que se adivinha a um passo da extinção. Muito pelo contrário: é a lamúria do mamífero que acorda um dia num mundo repleto de criaturas igualmente felpudas e adoráveis. Aí, ele sabe-se desvalorizado, banal, redundante.
Não, Fernando: julgo que nunca ele se arriscará a emigrar para a blogosfera. O pedestal faz-lhe falta demais.

Bem-vindo à petição

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Dias 7 e 8 deste mês, os Reporters Sans Frontières organizam uma cibermanif contra a censura na Internet. Da Tunísia a Cuba, muitas são as paragens onde a auto-estrada da informação está pejada de operações-stop e de desvios para prisões políticas. Pode ser que os ditadores não nos ouçam; mas é certo que alguns dos seus cúmplices irão prestar atenção. Já agora, podem assinar este compromisso promovido pela Amnistia Internacional.

novembro 03, 2006

Trânsfugas

Há uns dias, eu e o Zé Mário passámos em revista o pelotão de desertores da extrema-esquerda que hoje engorda as engravatadas fileiras do liberalismo. Confesso que dedicámos longos minutos à patusca figura de João Carlos Espada, o oxfordiano de obra invisível e famoso amigo póstumo de Karl Popper, antes um assanhado controleiro marxista-leninista-estalinista.
A páginas tantas, pergunta-me o Zé Mário: "será que o inverso também é possível, e muita desta malta que hoje escreve em blogues liberais vai dar em esquerdista daqui a uns anos?"
Por muito que me divertisse a visão do João Miranda de T-shirt do Che ou do Luciano Amaral numa manif de braço dado com a Odete Santos, tive de ser realista: "Não me parece. Aquilo deve oferecer melhores condições que a Esquerda. Pensando bem, é igualzinho ao que se passa com a homossexualidade: os gajos que para lá vão nunca voltam."

Ironias da política americana

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O caramelo que se refugiou no Champagne Squadron, a milhares de quilómetros da guerra, conseguiu fazer passar a ideia de que John Kerry, ex-combatente no Vietname, insultou os soldados americanos.
A equipa de spin doctors dos republicanos continua em forma. Kerry continua a dar provas de que não nasceu para isto da política. Bush, o homem das mil gaffes, continua a gozar de um estatuto único: a ele, todos os deslizes são perdoados com um encolher de ombros.

novembro 02, 2006

O Movable Type está tipo imóvel

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Não adianta tentar comentar coisa alguma. De acordo com a gerência do Weblog, o tráfego a mais está a emperrar a coisa. Ou é isso ou são as manchas solares. O facto é que nada funciona por aqui (não que a norma seja muito melhor...).

Momento Bandarra

Algumas expressões que vamos ouvir muitas vezes no futuro próximo:Read/Write Web; WebOS; Parakey.

Os 10 Mandamentos Liberais

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Com a recente confissão de Pedro Arroja — "O liberalismo é um produto do cristianismo e não é viável sem ele" — confirma-se algo de que sempre desconfiei: a versão do liberalismo professada por alguns nossos amiguinhos de folguedos é mais uma questão de fé que de razão. Aliás, bastava ler as suas reacções ao relatório Stern e os remédios que apontam para as alterações antropogénicas do clima (esquentadores inteligentes e SUVs híbridos, p. ex.) para topar que tanto fervor evangélico, tanta cegueira voluntária, só podia mesmo brotar de obsessões religiosas, não de pensamento sóbrio.
Depois desta revelação, os nossos intrépidos repórteres puseram-se em campo. Penetrando com ousadia na sede lusa do Grande Templo Liberal, apoderaram-se de um draft espantoso. Trata-se, nem mais nem menos, dos 10 Mandamentos Liberais, como constavam nas tábuas que o ressuscitado e venerando profeta Arroja trouxe da sua última visita a Chicago. Leiam e ponderem.

1. Amar o Mercado sobre todas as coisas.
2. Usar o nome da Liberdade sempre que possível; clamando, acima de tudo, que as ideias dos outros (leia-se "a Esquerda") a ofendem.
3. Nunca, mesmo em momentos de fraqueza, não rir ao mencionar o "Aquecimento Global".
4. Honrar qualquer governo dos EUA, desde que Republicano. Idem para Israel, mas independentemente do seu governo.
5. Abjurar a ideia de que a sociedade deve proteger os mais fracos; trata-se de uma tirania insuportável sobre os mais fortes e ricos.
6. Reconhecer na Iniciativa Privada infindas virtudes miraculosas e lutar quotidianamente para que mais e mais aspectos das nossas vidas sejam entregues aos iluminados desígnios dos Empresários.
7. Denunciar a incapacidade total do Estado para fazer seja o que for sem meter água.
8. Recusar um só tostão dos contribuintes à Cultura. Quem precisa de Brecht se pode ter La Féria? A quem interessará Emanuel Nunes quando anda por aí a lucrativa Ruth Marlene?
9. Atribuir aos madraços dos trabalhadores as culpas em qualquer conflito laboral ou em qualquer coisa que nos corra genericamente mal.
10. Acusar quem não acate qualquer um dos Mandamentos supra de iliteracia económica, corrupção científica, má-fé, ateísmo ou mesmo — t’arrenego! — comunismo.

novembro 01, 2006

É da minha vista...

... ou o serviço do Weblog está uma verdadeira merda?

Uma noite no football

Pela primeira vez num quarto de século, fui assistir a uma partida de futebol profissional. Ficou-me na retentiva o simpático rapaz vestido de verde que fez o primeiro golo do SLB e a assistência para o segundo. Imune a essas desventuras, a claque do Celtic acabou o jogo com palmas e cânticos; afinal, e ao contrário do que pensam os tugas, futebol é festa, não drama e depressão. Mas também eu cantaria se soubesse que estava prestes a regressar a um país civilizado. Cá fora, os adeptos do Benfica agradeciam a visita dos irlandeses com simpáticos "Celtic go home". Enfim; a tristeza do costume.

outubro 31, 2006

Sol a mais

O “Sol” é mais ou menos o que eu esperava do seu director/inventor: uma versão chunga do “Expresso”. Mas o pior é mesmo o ramalhete de cronistas que por ali se acoitou. A coisa desafia a imaginação.
Começando pelo inenarrável Luís Filipe Borges, que vem esparramar a sua absoluta falta de graça no suplemento “Tabu”. Um exemplo? Isto: “Daqui a um ano: Madonna recebeu mais uma encomenda de África mas, inadvertidamente, adoptou um pigmeu por engano.” Nunca pensei que este dia nascesse: sinto uma apertada saudade do Badaró. Na mesma revista ainda surge a Bomba, com os seus típicos estrugidos que misturam “espargatas irrepreensíveis”, uma “super-dupla de criadores” de moda e descrições empolgadas de... um jantar no Império. Deve haver quem goste.
Mas o “Sol” propriamente dito também se apresenta como um bestiário da crónica indigente: o conhecido industrial do cinema António Pedro Vasconcelos a insinuar que Pedro Costa fez “No Quarto da Vanda” apenas porque não tinha dinheiro para filmar pastelões tamanho-família como o “Titanic”; Margarida Rebelo Pinto auto-investida no cargo de “Carrie Bradshaw da Bobadela” perorando sobre as parecenças entre um prato de ostras e o cunnilingus (ideia assaz original e um primor de requinte); o esforçado director, himself, que acabou de reparar que as mulheres já não vivem à frente dos fogões e nos anuncia com estrépito a chegada de uns ditos “Casais do Futuro”, em que ambos trabalham ao mesmo nível: “as mulheres começam a não aceitar ficar na sombra dos ‘grandes homens’, querem ter existência própria”. As desavergonhadas; as rematadas insurgentes! No meio da desgraça, Paulo Portas, com um interessante digest sobre a revolução húngara de 1956, até consegue fazer a pretendida figura de estadista ilustrado.
Como não tenciono comprar esta espécie de jornal, a coisa não me apoquenta por aí além. Aliás, até vejo vantagens em semelhante concentração de banalidade, mau gosto e tontice: como a minha mãe diz sempre que vê um casal composto por duas criaturas execráveis, “ao menos, assim só se estraga uma casa.”

outubro 30, 2006

Interrupção voluntária do rigor

Eduardo Pitta continua sem perceber muito bem onde é que meteu água, no seu primeiro post acerca da IVG. Mais uma vez: não é apenas ao requerer "comissões de certificação" que a legislação lusa difere da espanhola. É, antes de tudo o mais, na exigência de "perigo de morte ou de grave e duradoura lesão para o corpo ou para a saúde física ou psíquica da mulher grávida". Alguém julgará que é fácil determinar que uma "lesão psíquica" vai ser duradoura?
Depois, as tais comissões não se limitam, como o Eduardo pensa, a obstetras, com ou sem "tomates": elas têm de incluir "a presença obrigatória de um obstetra/ecografista, de um neonatologista e, sempre que possível, de um geneticista, sendo os restantes elementos necessariamente possuidores de conhecimentos categorizados para a avaliação das circunstâncias que tornam não punível a interrupção da gravidez".
Finaliza assim a coisa: "Por que razão a lei funciona em Espanha e aqui não? Porque em Espanha a classe médica endossa à mulher a responsabilidade de declarar se há, ou não, dano psíquico, e se o mesmo tem, ou não, carácter reversível." Errado, errado, errado.
1- A lei funciona em Espanha porque é diferente da nossa, quer na sua formulação, quer na posterior regulamentação;
2- A classe médica espanhola não "endossa" coisa alguma à mulher: ali, a IVG carece de um "dictamen emitido con anterioridad a la intervención por un médico de la especialidad correspondiente, distinto de aquel bajo cuya dirección se practique el aborto";
3- A avaliação do "carácter reversível" dos danos psicológicos não é da responsabilidade de ninguém, pois essa exigência não faz parte da lei espanhola.
Mas será que custa assim tanto investigar um pouco os assuntos antes de emitir sentenças definitivas e grandiloquentes?

outubro 29, 2006

Vermilion Heights

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A pequena cidade do Illinois onde ocorreu, no dia 19 de Junho, o confronto entre Cutter e o famigerado “Elefante Eléctrico”. O que ali aconteceu ao certo jamais será conhecido. Da refrega, sobraram os restos calcinados de dois jovens membros da Irmandade, um monte fumegante de peças metálicas derretidas — tudo o que restou da enigmática arma de Nikola Tesla — e um enorme mistério a pairar sobre o desaparecimento de Abraham Cutter. Fosse ou não o espectro furioso de elefanta Topsy a enfrentar naquela madrugada chuvosa os raios de Tesla, certo é que a assombração de 1903 não mais voltou a ser vista.

Tesla, Nikola

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Hoje venerado como uma espécie de semideus da Ciência, um profeta vindo ao mundo cedo demais, Tesla é dificilmente distinguível do belo mito que o recobre. Além da invenção do motor a corrente alternada, as suas pesquisas levaram-no a registar patentes em domínios tão distantes como a robótica, as ondas de rádio, a balística, a física nuclear, os raios X, a supercondutividade. Os seus adoradores mais imaginativos creditam-lhe ainda a capacidade de gerar terramotos, a criação de um raio da morte que poderia destruir aviões a centenas de quilómetros, a descoberta de sinais de rádio extraterrestres, a refutação da Relatividade de Einstein e a transmissão sem fios de grandes quantidades de electricidade. O facto de os seus documentos terem sido confiscados pelo FBI e ocultos sob o selo “muito secreto” no dia seguinte ao da sua morte só veio aumentar a sua fama de génio maldito. Tesla foi um apoiante da Irmandade do Novo Paradigma, financiando-a generosamente nos seus dias de maior desafogo, embora nunca se lhe tenham conhecido grandes fervores religiosos. É certo que, pouco depois da sessão com os irmãos Eddy, Cutter visitou a Torre de Wardenclyffe, onde o cientista trabalhava no seu projecto de transmissão de energia à distância. Terá dali saído com um misterioso vagão coberto, carregando um “gerador de raios de partículas” ou canhão de plasma, segundo as teorias. Uma arma para matar espíritos, portanto.

Séance

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Em Maio do mesmo ano, Abraham Cutter terá participado numa sessão espírita com o par de médiuns mais famoso de sempre: os irmãos William e Horatio Eddy, descobertos 30 anos antes pelo coronel Henry Steel Olcott. Ao inquirir os videntes sobre a misteriosa fera ectoplásmica que assombrava o Sul dos EUA, os convivas viram-se face a um espectro que se materializou na sala envolto por “vapores nauseabundos que lhe ocultavam as feições”, de acordo com a teósofa Margaret Nelson, uma das organizadoras desta séance. O espírito declarou ser William Kemmler, a primeira vítima da letal da cadeira de Edison. A sessão acabou por ser invulgarmente dura e tensa, levando a que quase todos os participantes a abandonassem a meio, transidos de maus presságios e de um frio intenso. Apenas Cutter e os irmãos Eddy terão aguentado até ao final. Pelo pouco que Horatio revelou anos depois, o espírito de Kemmler tê-los-á alertado para o perigo que as aparições de Topsy representavam para todo o planeta: a presença de Deus no mundo estava a desfazer-se, contaminada por aquela abominação que ganhava força de dia para dia, alimentada pelos cabos de alta-tensão. Ao que parece, o alcoólico e analfabeto Kemmler ganhara vocabulário e cultura invulgares, no mundo do Além... Certo é que Cutter saiu do casebre no Vermont onde viviam os Eddy com a missão auto-atribuída de pôr um fim àquelas aparições. E com a localização precisa da próxima irrupção de Topsy no nosso plano da realidade.

Memphis

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Nos arredores desta cidade do Tenessee, aconteceu a primeira das supostas aparições post-mortem de Topsy. Corria a noite de 17 de Março de 1903, quando dois vigilantes dos caminhos de ferro observaram uma “nuvem luminosa” a ganhar “corpo e peso” mesmo debaixo de um poste eléctrico junto a uma estação de comboios. Um deles, Joseph Mallard, aproximou-se no momento em que a “nuvem” coalesceu numa forma gigantesca, “assente em quatro patas”. No meio de urros terríveis, aquela massa de luz avançou para o pobre homem. Segundos depois, ele caiu carbonizado por uma descarga eléctrica de intensidade incalculável. O seu colega deu início ao frenesi que envolveu as seguintes visões de paquidermes luminosos quando garantiu que aquilo lhe parecera “a alma de um elefante furioso”. Alguns jornais do dia seguinte ligaram a tragédia à morte, semanas antes, de Topsy. Logo de seguida, quase ao ritmo de uma aparição por noite, as investidas fantasmagóricas sucederam-se um pouco por todo o país, sempre por perto de postes de electricidade, sempre no meio de bramidos de fazer gelar o sangue. Provavelmente, poucas passaram de ataques de histeria. Mas, fosse como fosse, nascera a lenda do Elefante Eléctrico.

Execução

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Artigo do jornal Commercial Advertiser de 5 de Janeiro de 1903: “Topsy, a irascível elefanta de Coney Island, foi abatida no Luna Park, ontem à tarde. A execução foi testemunhada por mais de 1.500 espectadores curiosos que viajaram até à ilha para ver o fim do grande animal a que tinham dado amendoins e bolos em Verões que já lá vão. Para tornar a execução de Topsy rápida e certa, deram-lhe 460 gramas de cianeto, misturado com cenouras. Então, um cabo foi colocado ao redor do seu pescoço, com uma ponta presa a um motor a vapor e a outra ligada a um poste. De seguida, colocaram nas suas patas sandálias de madeira revestidas a cobre. Estes eléctrodos foram ligados por fios de cobre à central eléctrica Edison e uma corrente de 6.000 volts atravessou o seu corpo. A grande besta morreu sem um urro nem um gemido”. O pequeno filme que a equipa do grande inventor fez deste elefanticídio ainda hoje circula pela Internet.

Edison, Thomas Alva

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A sua reputação de Prometeu contemporâneo, de inventor inexaurível, eclipsou durante décadas a herança de Tesla: o homem prático que confiava mais na experiência do que em teorias e cálculos complexos versus o génio excêntrico que se dispersava por todos os ramos do saber sem conseguir garantir lucros ou reputação firme em nenhum deles. Do seu laboratório em Menlo Park saíram inovações em quase todos os domínios da vida contemporânea: do gramofone ao cinema, da lâmpada eléctrica à pistola de tatuagem. A aposta na corrente contínua levou-o a esquecer a sua oposição à pena de morte, empenhando-se em propagandear as virtudes da cadeira eléctrica alimentada a corrente alternada. A execução de Topsy, que ele filmou com o seu Kinetoscope, acabou por ser um golpe já desesperado numa guerra havia muito decidida e perdida.

outubro 28, 2006

Dirigíveis Misteriosos

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Objectos voadores não identificados que enxamearam os céus dos estados ocidentais dos EUA em 1896 e 1897. De forma cilíndrica e aparentados com os dirigíveis, apresentavam luzes e ruídos bizarros, gozando de métodos de propulsão desconhecidos na época. Mais estranhos ainda eram os seus ocupantes: desde cavalheiros bem vestidos que se declaravam a caminho de Cuba para participar na guerra hispano-americana até putativos descendentes das tribos perdidas de Israel, havia de tudo um pouco. Em comum, todos patenteavam uma grande vontade de comunicar com as testemunhas dos seus voos e uma afabilidade notável, mesmo quando se entretinham a raptar cabeças de gado. Em 1909, algumas zonas de Inglaterra puderam assistir a uma reedição do fenómeno. Estes antepassados dos discos voadores foram evocados por Cutter ainda no início do “Caso Topsy”. E partilharam uma característica peculiar com os Viajantes Loucos, seus contemporâneos: a rapidez com que a imaginação popular os esqueceu. Uma década depois da sua chegada, já quase ninguém os recordava. Hoje, estes relatos surgem-nos como incongruências anacrónicas, aberrações em que dificilmente conseguimos acreditar. Ovnis nos ares e manadas de zombies migratórios nos prados... tudo isto soa mais a uma fantástica História alternativa do que a algo que pudesse mesmo ter ocorrido no pacato século XIX.

Dadas, Albert

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O primeiro "Viajante Louco" — diagnosticado em 1886 — era um humilde trabalhador parisiense que começava a sentir uma vontade irresistível de viajar sempre que ouvia falar numa qualquer paragem longínqua; pouco depois, acabava invariavelmente por se pôr a caminho até alcançar destinos improváveis, por vezes a centenas ou milhares de quilómetros de distância. Uma vez terminada a peregrinação insensata, desprovido de qualquer memória ou pista sobre a sua identidade, ele tratava de angariar o dinheiro suficiente para regressar de comboio. Só que perdia sempre o rumo a meio do trajecto, embarcando noutra viagem incompreensível, depois de rasgar mais uma vez os seus documentos. Constantinopla, Argel e Moscovo foram cidades nos itinerários destas demandas não de descoberta mas sim de esquecimento. Depois, à medida que relatos de tais viagens sem rumo transbordavam das revistas médicas para os jornais europeus, os transes peripatéticos de Dadas começaram a infectar a imaginação popular. E pouco tardou até que eclodisse uma verdadeira epidemia de Fugas Dissociativas, denominação actual deste distúrbio. Os contaminados partiam sobretudo de França, mas logo os caminhos da Alemanha, Rússia e Itália se viram juncados de tristes viajantes de olhos vagos e passos obsessivos. Abraham Cutter sustentava que estes nómadas alucinados obedeciam aos ditames de uma Egosfera desequilibrada, como bússolas humanas condenadas a perseguir um Norte sempre imprevisível e errático.

Cutter, Abraham

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Membro fundador da Sociedade Teosófica, recusou-se a acompanhar o coronel Henry Steel Olcott na migração da seita para a Índia, em 1876. Fundou de seguida a mais discreta Irmandade do Novo Paradigma, onde pode expandir o seu peculiar conceito de “Egosfera”. Esta, uma evolução do “sétimo corpo”, ou Atma, dos teosofistas, seria um campo de energia senciente que envolve a Terra, gerada por todos os organismos do planeta. Para Cutter, a Egosfera seria uma interface com o próprio Deus e também um ente ainda em crescimento, prestes a despertar para a consciência. Ele analisou delongadamente eventos psicossociais como a epidemia dos “Viajantes Loucos” do final do século XIX e a vaga de aparições de “Dirigíveis Misteriosos” que assolou os EUA no mesmo período. Cutter postulava que comportamentos anómalos e visões inexplicáveis eram apenas sintomas de distúrbios na Egosfera: a sua interacção com espíritos humanos e com a própria matéria inanimada estaria a ser distorcida pelo uso cada vez mais disseminado da electricidade. Claro está que o caso Topsy não poderia deixar de o atrair; no seu último artigo, publicado no Boston Chronicle sob o revelador título “Visitors from Within”, este visionário semi-louco fez um levantamento de todos os fenómenos similares até então recenseados e teceu uma complexa rede de relações entre essas anomalias e a sua peculiar cosmovisão. O seu desaparecimento nunca explicado deu a derradeira nota insólita à biografia do último grande místico americano.

Condenação

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Quando Topsy fez a sua terceira vítima mortal, os seus donos, a dupla de empresários do showbusiness Thompson e Dundy, decidiram que era hora de fazer algo ao animal endemoninhado. E, se possível, retirar algum lucro do processo. Assim, foi anunciada a execução pública da elefanta assassina, por enforcamento. Os defensores dos animais protestaram ante a crueldade inaudita do método proposto. E a electrocussão surgiu, com alguma ajuda de Edison, como a alternativa natural: o estado de Nova Iorque substituíra pouco antes a forca pela moderna e mais “humana” cadeira eléctrica.

Cadeira Eléctrica

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William Kemmler, condenado pelo assassínio a golpes de machado da sua mulher Tillie, morreu em 1890, tendo sido agraciado com a dúbia honra de estrear a cadeira eléctrica. Esta, obra de alguns engenheiros ao serviço de Thomas Edison, era alimentada por um gerador de corrente alternada adquirido em segunda mão, pois a Westinghouse, seu fabricante, recusou-se a vender um para tal fim. A execução correu mal: a primeira descarga eléctrica, de 17 segundos, não matou o condenado. Enquanto o gerador recarregava, Kemmler gemia e contorcia-se, preso à cadeira. O segundo choque, com maior voltagem, durou mais de um minuto e acabou por matá-lo, numa nuvem de fumo de carne queimada que agoniou todos os espectadores. No seu julgamento, várias testemunhas atribuíram grande parte das desavenças do casal Kemmler a um caso que Tillie teria mantido com um jovem chamado... Jim Fielding. Não é certo que se tratasse do mesmo indivíduo que veio depois a morrer sob as patas de Topsy.

Blount, J. Fielding

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Este tratador de animais celebrizou-se depois de ter tentado dar um cigarro aceso a uma das elefantas do Luna Park, à laia de amendoim. Foi de imediato esmagado pelo paquiderme enfurecido. Um crime que, adicionado a dois homicídios anteriores, ditou o fim da pobre Topsy, assim se chamava esta elefanta indiana de seis toneladas. Fontes dificilmente verificáveis atribuem a Blount algumas relações com o círculo do filósofo e agitador Abraham Cutter, antes de uma tragédia familiar ou amorosa hoje insondável o ter entregue ao alcoolismo e a uma série de profissões não especializadas.

Atracção

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No início de 1903, o Luna Park, o grandioso parque de diversões de Coney Island, estava a receber os últimos retoques antes da inauguração. Alguns elefantes, comprados a circos, eram usados no transporte das cargas mais volumosas. Esta manada, que podia vaguear quase em liberdade pelo local, tornou-se numa atracção popular, recebendo a atenção de verdadeiras romarias de nova-iorquinos ao fim de semana.

Alternada/Contínua

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AC/DC: a guerra sem quartel que, na transição entre os séculos XIX e XX, opôs Thomas Edison a Nikola Tesla. A corrente contínua, defendida por Edison, acabaria por sair derrotada: com a tecnologia da altura, o seu transporte a longas distâncias implicava perdas incomportáveis. No outro canto do ringue, estava a Westinghouse Electric Co, armada com o trabalho do genial e misterioso Tesla, cientista de origem sérvia e reputação quase sobre-humana. Sabendo-se condenado à derrota, Edison recorreu a alguns golpes publicitários para persuadir o público dos riscos que a corrente alternada representaria: passando pela execução de animais e pelo patrocínio da primeira cadeira eléctrica. No domínio circense, Tesla também não esteve mal, encenado apresentações em que servia de condutor humano para acender lâmpadas. Apesar do desenlace que o aproveitamento hidroeléctrico do Niagara trouxe, só em 2005 é que se apagou o último sistema de distribuição pública de corrente contínua: em Manhattan muitos elevadores continuaram até então a usar os antigos circuitos de Edison. Ironicamente, sabe-se hoje que a corrente alternada de baixa frequência facilita a indução de fibrilhação ventricular, sendo assim um pouco mais perigosa.

outubro 27, 2006

Senhores do Google: preparem-se para a paulada!

"Não devia ser possível abrir um blogue sem o autor ser identificado e tecnicamente confirmado", Miguel Sousa Tavares.

Coisas que dão mau nome à Esquerda

Há muito que a malta do costume já nos tirou a pinta: sempre em pé de guerra com acusações estapafúrdias, sempre prontos a ensaiar grotescos levantamentos populares, cronicamente incapazes de entender o funcionamento do mundo real.
Notem que se trata de generalizações simplistas e redutoras, claro. Mas, de quando em vez, lá surge alguém que se empenha em dar-lhes uma amostra de razão. Fazendo eco de folclores ridículos via SMS; acusando de censura, nem mais, o doclisboa por se ter resguardado de um processo legal que talvez nem tivesse forma de custear; apontando hoje o dedo justiceiro para a Banca: que o que paga de impostos está "longe, muito longe, daquilo que legalmente deveria pagar"; que usufruiu de uma isenção fiscal para "depósitos colocados em Offshores"; que o "último registo de lucros da banca é da ordem dos 30%", em pungente oposição às "famílias endividadas".
Isto quando a realidade é bastante mais complexa. E menos passível de ser iluminada com tiradas estridentes, panfletárias e simplistas (claro que a Banca não paga menos do que a lei exige, apenas se agarra a todos os buracos da mesma; tratava-se sim de obrigações emitidas em paraísos fiscais, não de depósitos; 30%? De quê? ).
Pessoalmente, agradeço à Joana Amaral Dias por ter ajudado a afundar a última candidatura presidencial de Mário Soares; mas parece ideia recomendável que se abstenha de participações muito activas, por exemplo, na campanha pelo "sim" à despenalização da IVG.

Mais uma conversa da treta, a propósito do aborto

Eduardo Pitta acaba de retomar uma conhecida argumentação acerca da lei portuguesa que regulamenta o aborto. Conhecida e errada, aliás.
De acordo com a rediviva teoria, a lei existente é igual à espanhola sendo, portanto, bem capaz de dar conta do recado. Ou seja, não faz falta um referendo, urge sim obrigar os relapsos dos médicos a cumprir os preceitos legais: “a lei espanhola foi decalcada da nossa: permite o que se sabe porque, num Estado de Direito, as leis cumprem-se”.
Ciclicamente, esta invenção com aparência de coisa sensata vem de novo à tona. E importa relembrar de novo o óbvio:
O artigo 140.º do nosso Código Penal descreve os casos em que a IVG não é ilícita, começando por:
"a) Constituir o único meio de remover perigo de morte ou de grave e irreversível lesão para o corpo ou para a saúde física ou psíquica da mulher grávida;
b) Se mostrar indicada para evitar perigo de morte ou de grave e duradoura lesão para o corpo ou para a saúde física ou psíquica da mulher grávida, e for realizada nas primeiras 12 semanas de gravidez;"
Por acaso, o artigo 417 bis do Código Penal dos nossos vizinhos até faz exigência parecida: "Que sea necesario para evitar un grave peligro para la vida o la salud física o psíquica de la embarazada". Só que se nota uma crucial divergência, mesmo aos olhos de quem, como eu, não é jurista: a falta dos adjectivos "irreversível" ou "duradoura" a classificar os perigos que a saúde física ou psíquica da mulher grávida terá de correr. O que faz toda a diferença: imaginam algum psiquiatra a certificar que alguém — que não um convalescente de AVC ou de lobotomia — vai por certo ter problemas psíquicos indeléveis ou delongados? Claro que não.
Mas há mais. A Lei 90/97 veio deixar claro que "o Governo adoptará as providências organizativas e regulamentares necessárias à boa execução da legislação atinente à interrupção voluntária da gravidez". Isto aconteceu com a Portaria n.º 189/98, que obriga à constituição de "comissões técnicas de certificação", compostas por "três ou cinco médicos como membros efectivos e dois suplentes", incluindo "a presença obrigatória de um obstetra/ecografista, de um neonatologista e, sempre que possível, de um geneticista, sendo os restantes elementos necessariamente possuidores de conhecimentos categorizados para a avaliação das circunstâncias que tornam não punível a interrupção da gravidez". Coisa simples e pouco burocrática, claramente vocacionada para simplificar a vida às grávidas em risco. Eis como a lei se viu regulamentada com generosa abrangência.
Já se começa a tornar claro o abismo que separa esta situação da espanhola, não? É que lá, nas clínicas que hoje atraem inúmeras portuguesas, basta um “dictamen emitido con anterioridad a la intervención por un médico de la especialidad correspondiente, distinto de aquel bajo cuya dirección se practique el aborto” para que a intervenção possa ocorrer.
Não, Eduardo. Como se vê, esta não é uma mera questão de “chiliques”.

outubro 26, 2006

Por falar no fórum do Dótor Manuel Acácio...

...alguém me informa se o Professor Antunes tem por lá passado? Melhor, alguém me diz quando será a próxima aparição radiofónica desse inelutável vulto cultural-desportivo?

Recordações em rewind

Será que alguém ainda se lembra desta gente? Uma pista maldosa: o vocalista veio a ser co-responsável pela vinda ao mundo dos Bon Jovi...

Porrada!

Mas como é que tenho andado a perder isto? (Falo da troca de estocadas nos comentários, claro. Sem esquecer a saraivada final de pornopub.) Enquanto o "Querido Diário" de Jorge Reis-Sá continuar inacessível (como agora), o blogue do fep é mesmo a coisa mais cómica do nosso pobre panorama blogo-literato.

Recordações em remix

A quase-revolucionária obra-prima de David Byrne e Brian Eno, My Life in the Bush of Ghosts foi recentemente objecto de uma reedição ampliada e melhorada. Para quem anda há 25 anos fascinado com a esta colecção de sobreposições de ritmos ocidentais com objets trouvés sonoros vários (de uma gravação de um exorcismo a orações em Árabe), eis uma excelente notícia. Para quem gosta de desfazer e remontar obras alheias até as transformar em coisa sua, também: no site dedicado a este projecto, dois dos temas originais estão disponíveis para download às peças, com total liberdade de uso para os remixers. Até por lá anda um top das melhores versões recebidas até agora. Não sei se é, como os autores afirmam, uma estreia mundial, mas a visita recomenda-se, mesmo aos que não têm inclinações para a bricolage musical.

Just another compassionate conservative

O Blasfemo CAA, por norma tão preocupado com a propriedade privada, resolveu agora fazer humor a propósito das recentes inundações. O facto de centenas de pessoas estarem neste momento a braços com prejuízos terríveis, para já nem mencionar a vida que se perdeu, pouco importa quando comparado com o fim último da coisa: gozar com quem anda a anunciar a iminência de um aquecimento global.
Um dia, ainda irei entender o fervor quase religioso com que esta malta se encarniça, sem ter de entender peva do assunto, contra qualquer preocupação com o estado do planeta. Eu, por mim, não tenho certezas absolutas sobre o efeito das actividades humanas no clima; mas parece-me da mais elementar prudência ir acautelando o futuro. Um dia destes ainda se prova mesmo que andámos a fazer asneira; o problema é que aí talvez seja tarde de mais para emendar a mão.

outubro 25, 2006

A soberba em forma de gente

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No "Público" de hoje, Miguel Sousa Tavares trata de trucidar o "Esta Noite a Liberdade", livro de onde sacou à má fila, para usar a feliz expressão do Fernando Venâncio, algum "colorido narrativo". Tal livro "não é ficção, é um relato histórico, e muito mau" e de lá só se aproveitam mesmo as fotografias. Não sei se a cruel descrição corresponde à verdade, pois não li a obra em (des)apreço. Mas dá para desconfiar de alguém com um umbigo de tal forma inflacionado que lhe tapa a vista e o bom senso ao ponto de se sair com esta: "Sem modéstia, escrevi um grande livro". "Grande", só se for pelo número de páginas. "Grandes" são obras como "Moby Dick" ou "Gravity’s Rainbow". O resto é conversa.

AAA emigrou para a Twilight Zone?

Inspirado por um artigo que leu há pouco, André Abrantes Amaral resolveu agora que os EUA não têm nada de estar envergonhados pela iminência de abandonar as areias movediças do Iraque entregues à sua sorte. Não: deveriam andar em paradas e foguetório comemorativo. Na realidade, venceram a luta contra o terrorismo!
Juro que isto vem lá escrito: "É certo que o mundo não está mais seguro que em 1998, mas está bastante menos perigoso que o esperado no dia 11 de Setembro de 2001. Os EUA nunca mais foram atacados, várias células terroristas foram destruídas, esquemas de financiamento aniquilados. Hoje é bastante improvável um ataque da mesma envergadura ao ocorrido em Nova Iorque e Washington."
O ponto de vista é o de um americano radicalmente isolacionista: o resto do mundo nem sequer existe. Os EUA não foram mais atacados mas da mesma sorte não se podem gabar alguns seus aliados. As células foram destruídas e outras tomaram logo o seu lugar, como se vê pela chuva de bombas que cai todos os dias no Iraque; quanto tempo demorará até que aquela malta recém-formada se espalhe pelo mundo? Quantos mais estarão agora mesmo a converter-se ao fanatismo e à violência? E "improvável" já foi o 11 de Setembro; só por uma incrível mistura de sorte e incompetência das autoridades americanas é que um bando de grunhos armados de x-actos conseguiu aquilo. E, mesmo assim, a fazer fé no recente alarme em Londres, não vejo onde está a improbabilidade de uma reprise.
Por fim, como pode um país cantar vitória quando se deixou transformar pelo seu inimigo? Escutas arbitrárias, detidos sem processo, Guantánamo, sadismo no Iraque... cada uma destas tristes constatações soa a toque de finados pelo país justo e livre que os EUA já foram. Amarga vitória, a que o Blasfemo agora celebra.
Ele diz "com confiança que, tanto o terrorismo como a Coreia do Norte são problemas do passado". O solipsismo tem um novo e fulgurante paladino.

outubro 24, 2006

5 dias de chibatadas

Jorge Palinhos fustiga o soba do Porto mais o seu ciber-pasquim. António Figueira chicoteia o oxfordiano mais parolo da Europa: João Carlos Espada. Nuno Ramos de Almeida flagela um outro ex-esquerdista: Durão Barroso. Rui Tavares vergasta o angelismo americano. Querem mais? Vão .

Albert Camus # Budapeste 2006?

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Mais quel bordel!

outubro 23, 2006

Coisas giras que se lêem na blogosfera...

João Miranda, o inultrapassável paladino da liberdade em todas as actividades humanas, parece achar bem que um estado possa declarar que um dado cidadão estrangeiro é "combatente irregular" e o trancafie ad eternum sem lhe dar sequer um vislumbre do interior de um tribunal.
Miguel Sousa Tavares, o iracundo flagelador de maus hábitos e morais vacilantes, é bem capaz de ter plagiado extensas passagens do seu êxito, o "Equador".
Já andam por aí alguns blogues a favor do "não" no referendo sobre o aborto. Um dos quais até inclui alguns conhecidos nossos. Outro, onde pontifica um tal "Camisa Negra", lança estrídulos apelos a manifestações, com slogans de indiscutível inspiração maoísta: "Contra as manobras dos Pró-Abortistas e seus Lacaios."
Isto vai andar animado...

Santana Lopes no seu melhor

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Certamente sem querer, o nosso ex-primeiro-ministro (ainda agora parece impossível que uma tal osga lá tenha chegado, não é?) desmentiu o João Pedro Henriques. Este acusou há dias Sócrates de mentir: "Eu, por acaso, acompanhei a campanha eleitoral que lhe deu maioria absoluta e não me lembro nada de o ouvir dizer que sim, que em determinadas circunstâncias até poderia acabar com umas quantas SCUTs".
Hoje, Santana veio testemunhar que não foi bem assim: "(Sócrates) disse em várias ocasiões que com ele não haveria portagens nessas mesmas SCUTs a não ser daqui a uns anos, quando o nível de desenvolvimento dessas terras já o permitisse". (Eu, por acaso, já não me lembrava disto; mas também não "acompanhei a campanha eleitoral" com o empenho do JPH...)
Moral da história: nem a chatear os adversários o Santana é competente.
Depois, na continuação da mesma crónica, ele esforça-se por nos explicar que continua sem entender nada do que lhe aconteceu nas eleições fatais. Afinal, ele perdeu não porque os portugueses estivessem fartos de ver um asno narciso e autista no poder, mas sim porque Sócrates fez "batota política"! A sério. E finaliza em tom poético-ressabiado: "A política não pode continuar a ser feita assim. Como em tudo na vida, só vale a pena se for com decência, com verdade e se for bonito."
A lata da criatura não tem limites. "Com verdade"? O fulano que conquistou a Câmara de Lisboa montado numa resma infindável de promessas mirabolantes quem nunca ninguém cumpriu tem o descaro de vir agora queixar-se? São irritações destas que ainda me vão rebentar um aneurisma.
Amigo leitor: se quiser um curso instantâneo de demagogia barata, consulte a lista (por certo parcial) de promessas de Santana Lopes, ao candidatar-se contra João Soares. Julgo que só as duas primeiras, em 22, foram parcialmente cumpridas:

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O Insurgente rocks!

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Na nova residência do Insurgente (notícia bem atrasada) há quem tente animar as hostes com tiradas a leste das habituais prédicas a desmentir o aquecimento global, a extinção do bacalhau, o fiasco do Iraque, a Evolução, etc., etc.
O bom Helder (não confundir com os outros elders) presenteia-nos hoje com uma pequena celebração da chegada do último disco dos Motörhead. Não sei se ainda atordoado pela audição da coisa em altos berros, esquece-se de mencionar os Hawkwind ao falar de Lemmy Kilminster. Pecado mortal. E ainda se lembra de evocar Chet Baker a propósito de umas tais last rock’n roll stars.
No problemo. A simples leitura de coisas como "P**a que o p***u!" ("pariu" agora é palavrão?) no sorumbático Insurgente inspira a indulgência. Continua assim, Helder: dá-lhes com força. Mas tem atenção com as companhias. É que as más ideologias são como as más drogas: mais cedo ou mais tarde, dão-nos cabo da cabeça...

outubro 22, 2006

Orgulho e preconceito

João Pereira Coutinho gosta de se imaginar um aristocrata do pensamento. Vai daí, como todos os parvenus, decreta que os demais não passam de ignaros — a custo organizados em "hordas", ou “tropas fandangas”— sempre animados da “ignorância larvar” que agora diagnostica, na sua coluna no “Expresso”, a toda a nossa classe política. Para ele, o povo gasta os seus dias a ulular aleivosias, a quilómetros das verdades supremas que esvoaçam nos amplos espaços daquele crânio abençoado. É que o rapaz sonha-se o único a saber ler (ou a consultar resumos na Amazon...) e acha que conseguir soletrar “Oakeshott” é prova de sapiência e elegância. Hoje, prova é que que não foi grandemente dotado nem de uma nem de outra.
O tema é o aborto. Para variar, o menino declara-se incomodado com o ruído que os inferiores andam a fazer em seu redor, começando pelo primeiro-ministro. É que ele, JPC, até já decidiu que não estamos a falar de “mulheres presas (quantas foram?)” nem de “tragédias de vão de escada (quantas existem ao certo?)”. E eis como a ignorância confessa se vê promovida a opinião: ele não sabe quantas pessoas afecta o drama do aborto, logo parece-lhe lógico, como bom solipsista, menorizar a questão.
As perguntas que realmente interessam ao jovem iluminado são: “será que um embrião constitui vida? E, em caso afirmativo, será que o Estado tem uma palavra a dizer quando a cessação de vida pode ocorrer?”
O português empregue nestas “primevas” questões é deplorável e o seu significado nebuloso (que é isso do “constituir vida”? E quem é que alguma vez duvidou que um feto estivesse vivo?). Mas, mesmo assim, ele não tem dúvidas em responder “sim” a ambas. Lá saberá porquê.
O que eu nunca entendi muito bem nestas discussões é a razão de quase todos aceitarem a inexistência de actividade cerebral como definição aceitável de fim da vida humana mas parecerem incapazes de usar padrão simétrico para marcar o seu início. Se um embrião ainda não possui sistema nervoso central activo, estando o seu córtex desligado do tálamo, não é ainda um ser humano. Poderá sê-lo “em potência” ou “aos olhos de Deus”; mas é tão senciente quanto um feto anencefálico. E que médico levaria até ao fim uma gravidez dessas?
Acho óptimo que cada um preze a sua própria bússola moral e acalente a superstição de sua preferência; mas não tentem obrigar os outros a segui-las, por favor.

PS: um pouco ao lado, na mesma página do “Expresso”, Daniel Oliveira trata de nos explicar que “quem ganha seiscentos ou setecentos euros não é rico. Nem sequer é de classe média”. Abaixo desse patamar, viriam os “miseráveis”. Pois. Mas em 2004, o ordenado mensal médio em Portugal não chegou a 922 euros. 769 para as mulheres. Ilíquidos. Agora, basta imaginar uma daquelas bonitas e úteis curvas em forma de sino para se ver o quão longe anda o Daniel de saber o que é na realidade a “classe média” deste triste país.

outubro 20, 2006

Mortos a mais no Iraque e outras ilusões

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Pedro Magalhães indica-nos mais uma boa pista para entender o estudo da Lancet. Alguns pixels acima, Ted Rall dá-nos mais um belo momento de cinismo em quadricromia.

Desastres gastronómicos

Seguia eu já bem atrasado para o jantar de ontem, serra de Sintra acima, quando quase fui abalroado por um autocarro repleto de turistas de olhos claros e arregalados. Alguns golpes de volante e de travões depois, percebi que sobrevivera; eu e o grande recipiente plástico que viajava a meu lado, cheio do melhor cozido à alentejana de Lisboa (obra do excelso "Barrote Atiçado").
Depois, pus-me a imaginar desenlace mais dramático e cénico. O meu rotundo cadáver disposto numa travessa de alcatrão, guarnecido por couves, batatas, nabos, grão, na fumegante companhia de carnes variegadas e enchidos das melhores proveniências. Quem desse comigo em tais preparos não duvidaria que se estava ali a aprestar um banquete para algum deus canibal.
Já me antevi em mortes mais dignas.

Bacalhaus e liberalismo

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Os alarmistas do costume não se cansam de anunciar desastres e cataclismos iminentes. Estes profetas da desgraça vivem em perpétua e feliz inimputabilidade. Não sabem nem querem saber quem irá pagar as extravagantes medidas profiláticas para desgraças que, afinal, só existem mesmo nas suas imaginações inflamadas.
Depois do aquecimento global, chega a vez do bacalhau. Baseados em estudos "científicos", os arautos do fim do mundo proclamam agora que o Mar do Norte está quase a ficar devoluto das sápidas criaturas. A pesca em massa estaria a levar o bacalhau à extinção, imagine-se! Como não podia deixar de ser, a factura a pagar para fugir ao pesadelo cairia sobre as costas largas das empresas: até já houve quem propusesse o fim da pesca ao bacalhau. Aleivosia! Que seria da indústria de restauração nacional se alguém ligasse a esta malta?
Com estes disparates, a tropa fandanga de "cientistas", esquerdistas e pseudo-ecologistas só revela, mais uma vez, a sua total iliteracia económica. Então não é óbvio que a pressão da procura levará inevitavelmente a um acréscimo da oferta? Que os simpáticos e generosos bacalhaus, confrontados com um número crescente de barcos pesqueiros, não tardarão a aumentar a sua fertilidade e a densidade dos seus cardumes? Como sempre, as leis do Mercado sobrepõem-se aos caprichos humanos e até à débil vontade das bestas marinhas. Amén.
Quanto aos estudos "científicos", apoiam-se mais uma vez em metodologias estatísticas desacreditadas (mas não me perguntem agora porquê) e em modelos que, como todos imaginamos saber, "não substituem totalmente a realidade". Digam-me: já andaram a vasculhar todos os fundos oceânicos do Mar do Norte? Contaram mesmo os casalinhos de bacalhaus que por lá andam, um a um? Claro que não! E se uma tal falácia lógica não basta para vos provar a alienação destes supostos defensores da Natureza, lembrem-se: a Estatística é aquilo que nos diz que um homem com os pés congelados e os cabelos em chamas está normal. Querem confiar o futuro da nossa Gastronomia Típica a uma "ciência" assim?

outubro 19, 2006

O SMS que fazia mesmo falta

Não é este. Mas poderia ser este: hoje às 21 horas em frente às bilheteiras dos teatros municipais de todo o país (lisboa-s.luíz). Em solidariedade com todos aqueles que querem fazer bom Teatro e nunca contam com a tua presença nos seus espectáculos. Contra a cantilena da "subsídio-dependência".

655.000? Pode lá ser!

Até agora, imperam duas atitudes críticas face ao discutido estudo da Lancet. Há quem se limite a emitir uns grunhidos do tipo "the methodology is pretty well discredited", sem se julgar obrigado a explicar porquê. E há quem assuma a posição fetal, esmagado pela imensidão do número. 655.000. Seiscentos e cinquenta e cinco mil mortos. Não pode ser; o meu jornal não me falou dessa gente toda; é uma percentagem enorme da população iraquiana; é impossível; deve haver algo errado com a metodologia.
Mas se quiserem ver como se pode pensar sobre um estudo destes, sem engolir acriticamente cada parágrafo e tentando encontrar explicações plausíveis, têm muito por onde escolher. Começando por quem entende de estatística, consultando depois um epidemiologista e um especialista em saúde pública, acabando por descobrir como é que os cadáveres conseguem fugir às manchetes indiscretas. Informe-se. Depois, se ficar indisposto, pode sempre voltar à santa inocência do "não pode ser!"

Uma pequena parábola sobre o aquecimento global

Eu cá recuso-me a usar cinto de segurança. Tenho aliás por certo que a torrente de palavreado — sempre oriunda dos sítios do costume — com que me desejam persuadir a prender-me à maldita engenhoca é apenas uma operação de propaganda esquerdista e estatista. Querem invadir a esfera sagrada das minhas opções íntimas e obrigar-me a afivelar o cinto. Mas eu continuo a duvidar que exista mesmo, no meu caso pessoal, uma correlação entre o uso da estalinista correia e uma possível degradação do meu estado de saúde. Parece-me mesmo que todo o investimento necessário à montagem desse sistema de segurança de duvidosa eficácia em milhões de veículos é um desperdício e um atentado à liberdade da indústria, que poderia, livre dessa canga, ter aumentado os seus lucros, melhorando assim a qualidade de vida de todos. Armado do meu saudável cepticismo, continuarei livre de cintos. Até ao improvável dia em que tiver mesmo um acidente grave e veja que a minha anatomia sofreu danos que até poderiam ter sido evitados com o funesto apresto. Então, e só então, pode ser que considere mudar de ideias. Se ainda andar por aí, claro.

outubro 17, 2006

A Rivolta do bom esquerdista

O amigo Nuno angustia-se pela integridade da minha esquerdista pessoa, não vá eu ter sido substituído por um clone às ordens do João Miranda. Nada disso. Por estranho que pareça, não gosto de ocupações, não entendo a alegria festiva do sitiante e aborrecem-me de morte as tiradas grandiloquentes dos Defensores da Cultura que sempre sobem ao palco nestas alturas.
Até te dou, Nuno, uma dezena de motivos para achar esta ocupação "disparatada":
1- Permite ao Rui Rio apresentar-se como vítima dos vândalos;
2- Tem a péssima consequência, em termos de imagem, de dificultar um concerto benemérito;
3- É iniciada por um grupo teatral com mau historial recente de público, abrindo o flanco à velha lengalenga da subsídio-dependência;
4- Não vejo razão para que um teatro não seja gerido por privados. Os melhores em Lisboa são-no;
5- Não estamos a contemplar a ideia de transformar aquilo num templo da IURD. Apenas de entregar a sua gestão ao vencedor de um concurso;
6- Este processo, se bem percebi, nem sequer tem ainda resultado anunciado;
7- O Rio foi eleito, logo tem legitimidade para investir em desfiles de carros velhos e não no Teatro, se tal não contrariar o seu programa eleitoral. Não gostam? Votem noutro;
8- Se tudo correr mal, o contrato será anulável ou acabará por caducar;
9- Aqueles okupas têm um ar deplorável;
10- E acima de tudo o mais, escreveram o poema "de intervenção" mais atroz que alguma vez li.

Need I say more?

Só espero que esta malta não se lembre de dizer que é de esquerda

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Na disparatada ocupação do Rivoli, nem mesmo o facto de estar em risco a realização de um concerto do Luís Represas é atenuante: a penosa função ia ser beneficente. Mas também era escusada a maldade de berrar aos quatro ventos a média de pagantes do último espectáculo da companhia que encenou este protesto...

outubro 16, 2006

Por mais amor aos números e doutorandos que por ali andem...

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...o rigor passa sempre para segundo plano quando a cegueira ideológica ataca. Inacreditável: o Insurgente, pela pena de André Azevedo Alves, dedica-se a tentar desfazer o estudo da Lancet que concluiu pela ocorrência de mais de 600.000 mortes no Iraque atribuíveis às sequelas da invasão de 2003. Começando, logo no título do post, pelas aspas marotas com que adorna a palavra "científicos". Depois, vem a prosa crítica de um suposto leitor que se anuncia médico. E que nos diz este? Necedades de toda a forma e feitio (mas nada que assuste o bom AAA). Começando por algumas questões que imagina difíceis: "Foram feitos inquéritos a famílias escolhidas aleatoriamente, mas onde? também nas zonas menos tocadas pela guerra? ou só nas mais violentadas?" Bastava ao incrédulo sr. dr. ter-se registado no site da conhecida revista médica para ver a sua angústia resolvida (1). Eis uma primeira abordagem que nos dá logo a certeza de que o comentador nem sequer pousou os olhos no estudo que quer demolir. Revelador.
Há também a velha ladainha de "os americanos têm sempre a culpa de tudo", insinuando que os pobres ocupantes nada têm a ver com as lutas intestinas do Iraque. Uma linda ideia que contradiz, para começar, todos os tratados que regulam ocupações. (2)
Mas há mais: "Uma das mais óbvias desonestidades do ‘estudo’ tem aliás a ver com a amostra: comparar 14 meses antes da invasão (em ‘paz’) com 14 meses a seguir (e portanto na fase em que houve guerra mais intensa e generalizada no terreno), e extrapolar os ditos casos desses 14 meses para os 28 meses seguintes, inflaciona, e de que maneira, os números." Só que nada disto é verdade: não houve no estudo qualquer "extrapolação" e quatro períodos são analisados: pré-invasão, Março de 03 a Abril de 04, Maio de 04 a Maio de 05 e Junho de 05 a Junho de 06. Aliás, na tabela abaixo (3) fica clara esta análise.

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outubro 13, 2006

Etiqueta Dadá

Leitura
Hábito mais característico de algumas comunidades do que de outras. Quando se viaja, tem-se uma boa oportunidade para tomar contacto com este acto, em transportes colectivos, em viagens mesmo curtas, pois certas pessoas vão a ler, enquanto outras olham para o ar. O mesmo se nota em salas de espera. Os tempos mortos podem ser aproveitados para a leitura, já que nem todos têm vida que permita cultivar-se. A leitura de bons livros é enriquecedora e desenvolve a nossa inteligência. As classes altas preferem memórias e biografias. Os livros de arte ficam bem nas mesas das salas. É importante cultivar este hábito junto das crianças desde tenra idade.

Entrada do Dicionário de Etiqueta da venerável Paula Bobone.

Mais um pagão?

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Assim, não há Império que resista!

Vamos dar um ataque de nervos aos nossos amigos liberais?

Pelas bandas do "Blasfémias", anda tudo em alerta vermelho com mais uma malfeitoria da França. O motivo (como se fosse mesmo preciso) é a aprovação de uma lei que criminaliza a negação do genocídio arménio.
Imaginem agora como é que os Blasfemos vão ficar quando descobrirem que também em Portugal a "negação de crimes de guerra ou contra a paz e a humanidade" é acto "punido com pena de prisão de 6 meses a 5 anos." Trata-se, imagine-se, de um dos "Crimes Racistas" descritos pelo Código Penal, através do seu artigo 240º.
Esta legalização da conformidade de pensamento já fizera correr muita tinta, a propósito de julgamentos de negadores do Holocausto. Mas, no entanto, não desculpa que o Gabriel Silva equipare uma lei francesa que proíbe o negacionismo com o preceito legal turco que o torna obrigatório. Há que manter, mesmo quando se casca na nossa bête noire preferida, alguns neurónios a funcionar.

outubro 12, 2006

Lá escapou um à "hegemonia imperialista"

Orhan Pamuk ganhou, como esperado, o Nobel da Literatura. Tinham mesmo de dar a coisa a um pagão, não era? Confessem: foi só para chatear esta malta...

outubro 11, 2006

A segurança social no inferno liberal

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O Insurgente André Abrantes Amaral explica-nos, em três penadas, os malefícios da segurança social e o precipício que separa o bruto socialismo do preocupado liberalismo.
Em primeiro lugar, defende uns tais "mais novos" que não desejam que parte do seu salário vá parar a um "bolo comum, que não é rentabilizado". Depois, AAA retoma a conhecida cantilena "os pobres, esses madraços" com uma tirada eloquente: "Para quê poupar se depois teremos uma reforma ‘digna’?" É que "as pessoas têm direito a reformas não apenas porque trabalharam, mas também porque tiveram certos cuidados. Acreditar que apenas devido ao trabalho já temos direito a tudo, é errado." Passa-se aqui, sem esforço evidente, do desejo de uma reforma digna a um luxuriante "tudo". Não me parece que vivamos na Holanda: por cá, muitos pensionistas têm de se contentar com um pecúlio que talvez os impeça de passar fome. Foram por certo preguiçosos, descurando os "certos cuidados" que AAA tem por indispensáveis.
Eu, por mim, até invisto algum dinheiro num esquema complementar; mas isto porque quero mais do que uma reforma "digna", gostaria mesmo de desfrutar de uma velhice repleta de vícios. Mas estará esta salvaguarda ao alcance da maioria? Duvido.

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outubro 10, 2006

Autocronologia

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Num filme com alguns anos, vemos imagens de uma rua numa cidade qualquer. Como adivinhamos num segundo a década em que tais planos foram colhidos?
Simples: olhamos para os automóveis.
O design automóvel é um datador mais fiável do que qualquer isótopo de Carbono. Patilhas vão e vêm, a moda dá voltas infindas aos mesmos eixos, a Arquitectura é duradoura demais para cronometrar com precisão a passagem de meras décadas.
Surge a questão: será que as linhas dos nossos veículos evoluem apenas pela pressão dos mercados e dos túneis de vento (Marketing e Ciência por fim juntos...) ou existirá mesmo um impalpável "ar do tempo" que os estilistas do automóvel devem prever?
A evolução no reino da Biologia opera segundo vectores comparativamente simples: os organismos que conseguem sobreviver ao seu meio ambiente proliferam e passam genes às gerações seguintes. No automóvel, as recompensas ao sucesso também existem: se um dado pormenor estético cai no goto dos compradores, por certo que vai arranjar forma de surgir até em máquinas de outros construtores.
Mas cada marca deve também, ano após ano, lançar novas versões, "actualizadas" dos seus modelos. E a obsolescência programada é uma bela arte: quem tem um BMW do ano passado deve ser levado a pensar que o seu automóvel já é "velho". Não por carecer das últimas soluções técnicas ou por estar senescente, mas apenas porque já anda na estrada uma versão do mesmíssimo modelo com um look muito mais "moderno". E ninguém quer ficar para trás, pois não?
Assim voltamos à cisma inicial: serão as antenas dos designers do ramo sensíveis às ínfimas vibrações do tal "futuro"? Estarão, neste preciso momento, encerrados em mosteiros budistas a antecipar o que vai ser o gosto dos automobilistas de 2012? Ou a coisa é ao contrário e são os seus caprichos sem tino que moldam a aparência das nossas cidades e, por extensão, a nossa ideia de "actualidade"?
Se a tal ciência mística existe mesmo, é de uma precisão arrepiante: basta ver modelos recentes da BMW, Mercedes, Opel ou Renault para lobrigar tendências comuns evidentes. Os planos despidos, quase ascéticos, de anos anteriores, estão a dar lugar a relevos ainda suaves, como se uma lenta cristalização operasse por debaixo das superfícies esculpidas pelos túneis de vento, erguendo sob essa pele metálica a ossatura de uma nova rispidez de ângulos e arestas.

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À míngua de notícias a sério, tomem lá mais um "caso Mateus"

O jogador que deixou o país futebolístico à beira de uma neurose, afinal já nem quer jogar pelo Gil Vicente.

Todos à manif em frente à ONU!

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O bravo camarada Gibel cita um pouco abaixo Donald Gregg, antigo quadro da CIA e ex-embaixador dos EUA na Coreia do Sul, que nos explica sucintamente o que significa "diplomacia" para a actual administração americana: falar com amigos e prometer conversas a quem se venha a portar bem.
Ignorância evidente do homenzinho. Os bloggers luso-liberais é que sabem: a culpa do teste nuclear norte-coreano cabe toda à ONU e à esquerdalhada que nem vem para a rua protestar contra um teste que talvez tenha sido positivo.
Imagino aquelas meninges febris a fumegar enquanto procuram as culpas da pérfida França neste imbróglio. Mas não deve tardar até lermos nos sítios do costume um post a apontar as responsabilidades morais de Louçã ou de Fernando Rosas na coisa.

outubro 09, 2006

Desta não estava à espera (2)

Já é oficial. O Gara anunciou a lista de personalidades internacionais que apoiam o processo de pacificação do país Basco e oferecem os seus préstimos para ajudar "em tudo o que seja humanamente possível". Francesco Cossiga, Mário Soares, Gerry Adams, Kgalema Motlante, C. Cardenas e Pérez Esquivel.
Por algumas horas andou por aqui um pequeno exclusivo noticioso. Pode ser que nos dêem um "Prémio Gazeta" lá mais para o Natal.

O envelope ainda mexe

À viva força, lá continuam a tentar ressuscitar o nado-morto que é o "Caso Envelope 9". Passado tanto tempo, ainda há quem esteja "sem saber o remetente deste envelope" (!) e estridentemente exija mais uma daquelas úteis e sempre produtivas comissões parlamentares.
Nunca entendi o mistério do famoso sobrescrito: um qualquer técnico menor da PT pega num ficheiro com as chamadas de um grupo de telefones atribuídos a servidores do Estado. Por preguiça ou inocência, limita-se a "filtrar" os números relevantes, sem cuidar de apagar os outros, e envia o documento para o tribunal. Alguém vê ali uma boa ocasião para lançar mais uma nuvem de pó sobre o processo Casa Pia e encomenda aos "jornalistas" do costume o servicinho. Depois, bastou a inépcia da PJ e o inacreditável Souto Moura para compor o ramalhete. Nascia mais um "caso" à medida deste país: sem substância, sem interesse, sem solução à vista. Mas sempre bom pretexto para mais uns gritos esganiçados.

outubro 08, 2006

Terror no Shopping

Estive hoje num dos aprazíveis templos de consumo do eng.º Belmiro. Por outras palavras, fui fazer compras ao Continente. A surpresa deu-se em casa, logo ao descarregar a tralha: no meio de alhos, douradas e enchidos variados, reluziam três T-shirts cor-de-rosa. Que não tínhamos, se bem me lembrava, colocado ali.
Ficámos largos minutos a mirar as clandestinas peças de roupa, como se nos tivesse surgido uma Virgem Maria na tosta mista matinal. Aquela aparição berrante seria um sinal do destino ou tão somente uma distracção de um outro consumidor matinal?
De súbito, hipótese mais sinistra subiu-me ao encéfalo: tratar-se-á de uma nova e insidiosa forma de terrorismo? Não contentes em infundir medo no nosso colectivo coração, os inimigos jurados do modo de vida português podem estar a querer modificá-lo do interior. E que melhor veículo para o totalitarismo behaviorista do que as nossas compras?
A quem obedecerá o insidioso sabotador, não sei. Só sei que amanhã as minhas Budweiser Budvar podem ser substituídas por botelhas do horrendo vinho kosher de Belmonte. Os meus bifes de mertolenga podem ver-se trocados por hambúrgueres. O belo chouriço de porco, substituído à má fila por posters de Maomé.
Hoje T-shirts cor-de-rosa, burqas cinzentas não tarda nada. Quando desse por mim, estaria convertido numa outra pessoa. Certamente mais ajuizada e com melhores hábitos de higiene. Mas mais aquiescente aos ditames dos nossos pérfidos e dissimulados inimigos.
Vigie bem o seu carrinho das compras, desconfiado leitor: pode ver-se em breve a empurrar uma arma de destruição massiva. Impérios já ruíram por muito menos.

outubro 07, 2006

Desta não estava à espera

Parece que Mário Soares aceitou um papel de relevo na mediação do conflito no País Basco. A ver vamos se é mesmo boa notícia.

outubro 06, 2006

O regresso do regedor

Jorge Coelho descobriu-se aterrorizado pelos projectos do seu partido para a área da Saúde. A ilustre eminência parda declarou mesmo "a maior das desconfianças dos tecnocratas a tratar de coisas que competem aos políticos".
E tem toda a razão. Se começam a ouvir os técnicos acerca de questões tão claramente "políticas" como o número de maternidades necessárias a Portugal, onde é que isto vai parar? Não tarda nada, já um bom soba não pode distribuir mercês a bons amigos e clientelas úteis.
Evitar esse pesadelo é um imperativo de cidadania. Devolvam aos nossos excelentes políticos a inteireza das suas competências. Deixem-nos construir um hospital em cada paróquia, uma maternidade em cada freguesia. Mandem a co-incineração para o estrangeiro, plantem um apeadeiro do TGV de cem em cem metros, tragam aeroportos em barda. O país cor-de-rosa agradece.

outubro 05, 2006

Crónicas do iPod shuffle

A perfect Hockney blue,
A child is born with no state of mind
History to the bone, memory to the marrow
Pale, pubescent beasts
Such little hearts to miss a beat
They ought to be more careful
The dream goes so much deeper

outubro 04, 2006

Como se escreve um livro (quase) sem querer?

1. Entre amigos, inventamos um pequeno livro monotemático de BD;
2. escolhemos desenhadores a convidar, começando pelos consagrados óbvios e só acabando com alguns nomes nunca publicados;
3. primeira mina detonada com um pontapé sem tino: ofereço-me para inventariar alguns episódios e situações que possam dar motes úteis aos artistas;
4. erro letal: anuo ao primeiro convite para escrever um argumento completo;
5. meto a cabeça no cepo para escrever mais umas quantas historietas;
6. a páginas tantas, já vejo a coisa como minha e ofereço-me para terminar a empreitada;
7. seguem-se semanas de alterações, de cortes para adaptar o verbo excessivo à parcimónia dos desenhos, de revisões e emendas de última hora;
8. seis meses volvidos, a cria está entregue aos bons ofícios da gráfica e eu posso voltar a fazer de conta que tenho vida própria. Começando pelo descurado Aspirina B.

outubro 03, 2006

Antes que os amigos das FARC me visitem

Aqui fica a atrasada boa-nova: como já por cá tinha sido anunciado, o Caderno de Verão fechou e do seu feio casulo saiu o borboleteante 5 Dias. Um blogue em que cada dia da semana é entregue a um escriba, que trata de convidar amigos, conhecidos e credores para animar os dias à malta. Não posso dizer muito mais pois a coisa é incompatível com o meu browser arcaico, não me permitindo grandes leituras. Mas, a ajuizar pelo naipe de artistas residentes — Nuno Ramos de Almeida, Rui Tavares, Ivan Nunes e António Figueira — aquilo promete. Ah; e a Joana Amaral Dias também por lá escreve.

A Arrojada Parúsia II

Arrebatados pela Segunda Vinda de Mestre Arroja, os Blasfemos andam imparáveis. Agora, descobrimos que a proposta de cedência remunerada de votos não era um improvável exercício de ironia. Afinal, era apenas uma forma de dar "ainda mais encanto ao fascinante mundo da especulação financeira".
Claro que o importante é mesmo jardinar os tais encantos, não impedir que o poder político fique apenas ao alcance de quem tem capital para investir. Afinal, a fazer fé nos Blasfemos, já toda a gente vende o seu voto a troco de promessas mirabolantes, portanto nem iríamos dar pela diferença. Já que suportamos o Valentim, podemos bem passar a fazer dessa chaga vergonhosa a regra oficial.
Presumo que a venda antecipada dos proventos laborais futuros de crianças e adolescentes não seja ideia a deitar fora sem cuidadosa ponderação pelos auto-nomeados cardeais do pensamento ultra-liberal (nada mais natural, depois das vénias e do beija-mão a quem já se entreteve a gabar as virtudes económicas da escravatura, fechando o olho míope ao pequeno pormenor da liberdade dos envolvidos). Tudo a bem dos "encantos" da especulação mobiliária; mas desde que não envolvesse os rebentos dos liberais, é bom de ver. Essas coisas da compra e venda da consciência são mesmo próprias do povinho: gente ilustrada fica de fora, a intermediar e dirigir tais transações cheias de encanto.

A Arrojada Parúsia

Nem vale muito a pena glosar pela milésima vez as fantasias alucinadas do regressado Professor Arroja, agora aclamado como santo padroeiro da Liberdade, nem mais. Do insigne combatente contra a tirania, recordo uma intervenção na TSF, já há um ror de anos, em que ele defendia o futebol como sendo a indústria de maior êxito, mesmo internacional, do nosso piolhoso país. Vai daí, bom, bom seria aplicar os seus métodos de gestão ao governo e convidar o supra-sumo dos empresários de sucesso, Pinto da Costa, para nos capitanear.
Não riam, que a coisa é verídica e séria. Para uma legião de académicos sem contacto com as realidades do nosso país, é mesmo boa ideia deixar os empresários lusos em roda livre. Que a coisa redunde quase sempre em conluios, cambalachos e outros arranjinhos limitadores da concorrência e da liberdade de escolha, é uma minudência sem qualquer interesse. Importa é o lindo mundo da teoria, onde o futebol joga com toda a lisura, sem fugas aos impostos nem corrupções, onde um pacote de sal tem o preço escolhido pelo mercado e onde figuras como Pinto da Costa e Valentim Loureiro são faróis a iluminar o nosso destino glorioso, entregues à Mão Invisível.
A liberdade de sermos dominados por quem pague mais. Eis o arrebatador programa destes génios incompreendidos.

outubro 02, 2006

Idem, idem!

Tenho um saco cheio de boas desculpas. Mas nem o vou tirar das costas. Por agora, basta-me fazer coro com o Zé Mário e preparar o regresso, que a coisa aqui tá preta...

setembro 04, 2006

Uma Aspirina para os pobres refugiados

Dos destroços do De Vagares, acabámos de resgatar duas pobres criaturas, oferecendo-lhes pernoita, uma sopita quente e exemplares do último disco da Marina Mota.
Fica assim explicada a ruidosa presença deste senhor por aqui. E ainda aguardamos que o outro refugiado se manifeste, assim lhe passe o trauma do naufrágio.
Peço desculpa por não ter anunciado a coisa com as trombetas exigidas pelo protocolo deste blogue (que, segundo um comentador, "ainda cheira a Daniel Oliveira" e de acordo com outro goza da supina glória de ser um dos "blogues emblemáticos de Daniel Oliveira") mas estava em reunião com o camarada Guterres a negociar as contrapartidas.
Novos amiguinhos de folguedos: portem-se bem, não exibam as partes pudendas em público e não atirem cocó aos visitantes. De resto, estejam à vontade.

Mestre Yoda encontra Mr. Spock

Não percam, pelas alminhas, a crónica de hoje do inultrapassável João César das Neves. Ali, o nosso profeta preferido entretém-se a perorar sobre as obsessões dos fãs da série Star Trek. Tudo para nos explicar, bem devagarinho, como é triste entregarmos as nossas vidas, os nossos anseios e desideratos a ficções patentemente mal amanhadas. Ideia com que concordo, aliás.
O problema é que ele escreve coisas como "erigir um mundo de ficção como orientação para a vida, que muitos consideram alienação ou manipulação de massas, está longe de ser exclusivo do Star Trek" e "em vez de entregarem a vida a um princípio abstracto ou um propósito pragmático, dedicam-se ao que sabem ser mentira, um mundo de ficção em que realmente não acreditam", sem reparar na acuradíssima descrição que está a fazer da religião em geral e da sua em particular.
Só por exemplo, se tivesse de escolher entre o Império Klingon e Fátima, elegendo a trama mais bem urdida e a ficção mais convincente, não hesitaria em optar pelos domínios do Chanceler Martok. E entre o corrente Papa e Mr. Spock, como fonte de sabedoria e bom senso, ficaria na dúvida.
Mas tudo bem; live long and prosper, como dizem os meus amigos vulcanos, entre outros. A cada um a sua ficção preferida. Mesmo que inclua disparates patentemente absurdos como "liberdade, justiça, humanidade, raça, classe, ciência, progresso, natureza, prazer", algumas das "propostas de filosofias, partidos e movimentos para substituir as religiões", segundo o visionário colunista do DN.
Pelo caminho, César das Neves ainda refere um divertido e famoso sketch com William Shatner, embora não fique claro se percebeu que se trata de uma ficção humorística. Nada de surpreendente, afinal.

agosto 30, 2006

Oxímoro do dia: Miguel Sousa Tavares fala de Arte

Há uns sábados, no "Expresso", Miguel Sousa Tavares dedicou-se, mais uma vez, ao seu entretém preferido: falar daquilo que desconhece. Desta vez, o alvo foi o negócio estatal com a Colecção Berardo. Teorizava o popular omni-especialista que, no mirífico "estrangeiro", quem quer expor uma colecção de Arte ou cria um museu privado ou oferece as suas obras e pronto. Assim: «se alguém tem uma colecção de pintura com milhares de quadros, tem obviamente um problema entre mãos: onde os guardar, como os expor. Nos países mais "normais", o problema resolve-se habitualmente com a doação da colecção ao Estado ou com a criação de um museu privado. Mas em Portugal as coisas não se passam assim».
É bom de ver que em Portugal as "coisas" passam-se sempre em obediência a sinistras cabalas: Berardo locupletou-se com um montão de massa, a ministra delapidou aquela entidade multiusos convenientemente chamada "os nossos impostos", etc. O costume, portanto.
A bem da verdade, o BE e o PCP trataram de imitar os MSTs, as Zitas Seabras e similares que por aí pululam: todos denunciaram o contrato "leonino", a negociata "chocante", etc. Tratar-se-ia de «um aluguer caríssimo, inédito em qualquer parte do mundo»; a deputada Seabra nem sequer conhecia «outros exemplos em que isto tenha sido feito assim».
Não conhece porque não dava mesmo jeito nenhum procurar. Basta ir a Espanha para se dar com um paralelo bem aproximado: o que deu origem ao Museu Thyssen-Bornemisza, em Madrid. Vejam o historial da coisa. Está lá quase tudo: um vultuoso pagamento anual do Estado aos donos da colecção, a permanência do Barão Thyssen como presidente honorário da Fundação criada para o efeito, a posterior compra a preços actualizados, etc. Mais: no caso espanhol, os 5 milhões de dólares anuais acordados nem sequer se destinavam a enriquecer a colecção; apenas a pagar aos seus proprietários. Ainda por cima, o palácio Villahermosa teve de ser remodelado, a expensas do Estado espanhol.
Mas o que interessam os factos a quem quer mandar umas bocas? (A bem da verdade, só encontrei uma análise serena e clara do contrato.) Os museus espanhóis são giros para visitar; mas investigar as suas origens é uma seca. Ainda por cima, MST nem sequer "recomenda" por aí além que se conheça a Colecção Berardo, algo natural para alguém que tem como ideia perceptível de Arte cerâmicas com retratos de Pinto da Costa.

agosto 16, 2006

Mais um jogo das semelhanças

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Para espairecer enquanto não volta a canícula, aqui fica um anúncio que talvez, talvez lhe traga à memória um outro, aqui mais do burgo. Depois, para continuar a saga, dê aqui um saltinho, que vale a pena.

Pavlov redivivo

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Alguns dos nossos compadres blogosféricos descobriram uma importante lição de vida nestes dias de guerra no Líbano. Como muitos outros grandes inventos, deve ter começado com uma singela interrogação: se se pode classificar indiscriminadamente os que se opõem aos desmandos de Israel como "anti-semitas", porque não encontrar um mecanismo similar para atacar quem não pensa como nós, à escala doméstica? Lá andaram a remoer o problema nos seus think thanks (presumo que esta actividade tenha sido regada com muito Chivas, a aquilatar pelos resultados) e acabaram por dar à luz a solução perfeita.
Primeiro, o dispositivo foi experimentado pela sempre vaporosa e inimputável Bomba. Passado o teste de fogo, lá foi a arma entregue às tropas a sério: o Blasfémias e o Insurgente. E de que consta, afinal, esta verdadeira WMD? Simples: se alguém discorda de nós, seja a propósito do bombardeamento a Qana ou do plantel do Benfica, é por certo simpatizante, acólito ou assalariado da asquerosa "extrema-esquerda".
Genial. E isto nem carece de qualquer cuidado com a realidade: não interessa saber quem é o visado, se é mesmo de esquerda, se é ao menos militante do BE... tudo são minudências a esquecer. Nem importa precisar o que será isso da "extrema-esquerda": deixada no ar, a acusação implica amor desenfreado por Estaline e analogias de bossas com Pol Pot. Urge é ter sempre engatilhada a resposta demolidora e multiusos: "ai escrevi mal a palava ‘redação’*? Olhe: quem repara nisso só pode ser de extrema-esquerda!"
A Bomba começou por disparar o novo morteiro conceptual na direcção do pobre Alexandre Andrade. Agora, é o insurgente André Azevedo Alves que descreve o Filipe Moura como "um activista de extrema-esquerda que está a estagiar no Público". Assim mesmo. O Filipe já não é o cientista, doutorado em Física, que foi um dos vencedores da iniciativa "Cientistas na Redacção". Nada disso: agora, não passa de um mero estagiário de extrema-esquerda.
Na peugada do chefe de fila, segue lesto o blasfemo João Miranda, com graçolas secas sobre uma tal "economia anacleta" (presumo que seja referência ao nome de Francisco Louçã, por acaso economista com obras de alguma circulação internacional), sempre a propósito do Filipe. Ora, este poderá ter muitos defeitos; mas não consigo imaginar que a adesão à tal "extrema-esquerda" seja um deles, sobretudo tendo em vista o seu frenético apoio à infausta candidatura do Dr. Mário Soares.
Quanto ao caso do Alexandre Andrade e da Bomba, nem comento o disparate que é lançar acusações difusas e inexplicadas sobre quem não se conhece nem entende.

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agosto 09, 2006

Mais uma guerra desproporcional

Silvam as sílabas aceradas entre a trincheira kleistiana e o reduto da Bomba. À ironia cortante do primeiro pelejador, responde a segunda com o chumbo grosso de declarar "extrema esquerda" tudo o que discorda dela. Assim não justificamos o apodo, senhora.

Um new look para o empresário português?

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O último número da revista "Nova Gente" inclui, entre muitas outras pepitas preciosas, um artigo sobre o "rei da noite de Albufeira", Anthony Pereira. Este empresário é sobretudo conhecido, ao que parece, por ser amigo de alguns futebolistas, a quem chama com desvelo "os meus meninos". E não julguem que é vida fácil "promover e muito não só Albufeira mas também todo o Algarve". Afinal, como ele deixa claro no final da entrevista, "tenho os meus meninos Deco, Couto, Maniche e Conceição que me levam muito tempo. Estamos a falar de pesos-pesados". Trata-se de um verdadeiro dínamo humano, portanto.
Mas é mesmo a "face mais fashion" deste colunável que o destaca. Analisemos pois com algum detalhe os pormenores que compõem a imagem de um metrossexual de sucesso.

1- A engenharia capilar é um must. Reparem como umas poucas farripas de cabelo desafiam a gravidade para impedir que a testa ganhe mais alguns centímetros. Não tentem isto em casa, por favor.
2- Um adereço indispensável: o crucifixo reluzente a querer saltar para fora do generoso decote. Noutra foto, que aqui não reproduzo por absoluta falta de espaço, a peça de joalharia em apreço surge sobre uma T-shirt branca. O efeito é ravissant.
3- O botão apertado criteriosamente escolhido, de modo a revelar os peitorais e limitar os danos que a exposição do abdómen poderia causar.
4- Arranjar e desenhar com esmero as sobrancelhas; eis outra actividade que o executivo de sucesso já não pode esquecer. Mas atenção: peçam à vossa esteticista que evite o design já popularizado pelo Marco Paulo.
5- Todas as pilosidades têm um papel importante a desempenhar. Seja a patilha afilada, o cacho de cabelos rebeldes na nuca, os irreprimíveis pêlos do peito ou a barba cerrada a transmitir rusticidade e energia.
6- A moda, sempre. Haverá melhor forma de anunciar de chofre a nossa presença do que usar uma fulgurante camisa multicolor com motivos étnicos e colarinho aerodinâmico?
7- Não esquecer nunca a importância crucial dos adereços: do arranjo de frutas ao relógio dourado, passando pela flute de Cordon Bleu. God is in the details, como se sabe.

É com uma gestão criteriosa e equilibrada de todos estes elementos que se cria uma imagem de grande impacte, sóbria elegância e, acima de tudo, muuuuuuito fashion. A ver vamos se cinzentões como o Belmiro aprendem alguma coisa com esta lição de estilo e savoir faire.

O novo sábio de Sião e os seus protocolos

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Por fim, descobrimos de onde brota a visão que Vasco Graça Moura tem da esquerda. Trata-se de um simples fenómeno de projecção: se imagina todos os esquerdalhos como fanáticos que só vislumbram o "seu" lado dos factos, como malta que não tem pejo em ostentar publicamente o preconceito mais cavernícola... é apenas porque ele, VGM, é precisamente assim.
Na sua crónica de hoje, refulge um fascinante exercício de propaganda negacionista. Enumerando os ataques que os judeus têm sofrido na Palestina, de 1920 até hoje, e branqueando por omissão a violência exercida sobre os palestinianos. Os crimes do Stern Gang e do Irgun ficam sem uma palavra. Massacres como o de Deir Yassin, perpetrado antes da independência e num local fora da zona destinada a Israel, talvez nunca tenham ocorrido. A fuga em massa a que ainda hoje os palestinianos chamam Al-Naqba, a Catástrofe, é resumida ao inacreditável "por várias razões, entre elas o medo, 656 mil árabes fugiram do território de Israel depois de 1947-48". As tais "várias razões" talvez se entendam melhor à luz destas palavras de Menachem Begin, então um dos comandantes do Irgun: "a lenda de Deir Yassin ajudou-nos, especialmente a salvar Tiberia e na conquista de Haifa (...) Os árabes começaram a fugir em pânico, gritando ‘Deir Yassin!’.... Árabes em todo o país caíram num pânico sem limites e começaram a fugir para salvar as suas vidas." Só na higiénica propaganda de VGM é que este medo surge como coisa injustificada, sem causa à vista. Vergonhoso.
Nada resiste ao esforço revisionista (ou à ignorância) do poeta/historiador. Mesmo a Guerra dos Seis Dias sofre uma metamorfose: ter-se-á tratado afinal de uma "reacção de Israel" à invasão do Sinai pelos egípcios. Note-se que no mundo real, não o das alucinações de VGM, foi Israel quem disparou os primeiros tiros nesta guerra.
Mas a ignomínia absoluta instala-se quando ele cita Paul Johnson para constatar que "para os árabes não há qualquer seriedade numa negociação. Esta, para a sua mentalidade, implica uma cedência a interesses contrários e é considerada traição. Quando muito aceitam tréguas para recuperarem o fôlego e pegarem de novo em armas."
Que diriam de alguém que citasse prosa similar, para, por exemplo, "provar" o carácter ganancioso dos judeus, que, como todos "sabem", vendem a dentadura da avó se o preço for vantajoso? Pois é: só uma besta quadrada e inimputável se lembraria de tal.
Como bem escreveu o António Figueira, "tendo em conta a natureza semita dos árabes, esta citação é talvez a maior manifestação de anti-semitismo recentemente publicada na imprensa portuguesa."
A crónica intitula-se "As lembranças de Sião". Mas "Os novos protocolos do sábio de Sião" seria título mais acertado para encimar este exercício de propaganda que apenas encontra malfeitorias (e até defeitos genéticos provavelmente incuráveis) num dos lados, esquecendo os monstros que se acoitam no outro.

agosto 08, 2006

A quarentona mais rápida do mundo

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A agora eslovena Merlène Ottey qualificou-se para as semifinais dos 100m do campeonato europeu de atletismo. Com 46 anos.

O "pequeno Satã" terá mais olhos que barriga?

É interessante, embora preocupante, ver como até vozes da esquerda israelita, como a de Yoel Marcus, parecem apostar num sprint final rumo à barbárie antes que surja mesmo um cessar-fogo. Ele partilha algumas preocupações que já circulam pelo mundo; mas prefere ignorar as questões mais difíceis e encerrar o texto em tom feroz: "a realidade é que precisamos de suster a respiração e atacar o Hezbollah com tudo o que temos, por terra e por ar, até o neutralizarmos enquanto força militar perto das nossas fronteiras. É importante ganhar ascendente até à hora do cessar-fogo. Temos de lhes mostrar que o ‘pequeno satã’ tem grandes dentes."
Não sei bem se será possível, hoje, aniquilar um Hezbollah surpreendentemente forte e bem equipado. Mas sei que esta análise tem pelo menos uma pecha óbvia: continua a encarar movimentos como o Hezbollah como uma simples "força pró-iraniana", um "braço operacional" neutralizável de forma clássica. Ignorando que o Islão mais radical não é um mero títere deste ou daquele governo da região: em última análise, almeja substituir-se a todos eles.

"Xi quê?"

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E se a administração dos EUA, a começar pelo seu presidente, fosse mesmo ignara q.b. para se decidir pela invasão do Iraque sem saber nada daquele país, começando pelo "pormenor" das divisões entre sunitas e xiitas? E se aquela malta fosse mesmo suficientemente arrogante para julgar que bastava desembarcar em Bagdade com uns caixotes de Apple Pie, bolas de baseball, posters da Marilyn e Happy Meals para ali operar o milagre da democratização instantânea?
Impossível, certo?
Hmmm. Por indicação do amigo Gibel, deparei com esta entrevista ao ex-embaixador americano Peter Galbraith (sim; filho de JKG), a propósito do lançamento do seu livro The End of Iraq: How American Incompetence Created A War Without End. Pelo que ali se lê, um ano depois do célebre discurso do "Eixo do Mal", Bush teve uma reunião com três emigrantes do Iraque nos EUA, que tiveram a amabilidade de lhe explicar o que era ao certo o seu país de origem. No final deste encontro, o homem mais poderoso do mundo exclamou, ainda em profunda surpresa: "eu pensava que os iraquianos eram muçulmanos!"
Nas palavras de Galbraith, "do presidente e do vice-presidente até aos neoconservadores no Pentágono, havia uma crença segundo a qual o Iraque era uma página em branco onde os Estado Unidos podiam impor a sua visão de uma sociedade pluralista democrática. A arrogância surgiu quando se acreditou que isto podia ser alcançado com um mínimo de esforço e planeamento dos Estados Unidos e que não era importante saber algo acerca do Iraque."
As conclusões são demolidoras para o futuro imediato daquele país: "não se pode ter um governo de unidade nacional quando não há nação, unidade nem governo" ; "graças a George W. Bush, o Irão não tem hoje um aliado mais próximo em todo o mundo do que o Iraque dos Ayatollahs."
Leiam o artigo que vale a pena. Depois, podem comprar o livro e oferecer-mo, que fiz anos no outro dia.

Whatever happened to...

Entre estatísticas alarmantes, ideias reaças e notícias urgentes, os nossos ex-camaradas Nuno e António lá vão animando, com pundunor e admirável resistência ao calor, o seu caderno veranil. Mesmo sem a presença dos outros putativos escribas, a coisa recomenda-se.

agosto 07, 2006

Santa incompetência

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A Reuters não voltará a usar trabalhos do fotógrafo Adnan Hajj, que manipulou uma imagem de um bombardeamento a Beirute. Parece-me mal. O homem devia ter sido despedido não por quebra da ética jornalística mas sim por usar de forma tão pavorosa e óbvia a ferramenta "Rubber Stamp" do Photoshop. Que é aquela espécie de caracóis a ornamentar as nuvens de fumo, meu Deus?
O escândalo rebentou mesmo a tempo de impedir que muitos jornais usassem uma outra fotografia adulterada, esta de forma quase imperceptível...

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Asneiras


Sei que é demais pedir a Luís Delgado alguma ponderação nas suas opiniões ou sequer que se dê ao trabalho de ler umas páginas antes de escrever coisas como "pela primeira vez na História, um grupo de radicais afronta, diariamente, o mais poderoso e organizado exército do Médio Oriente", esquecendo a invasão de 1982.
Mas, ao menos, bem que podia deixar de usar os termos "míssil" e "rocket" como se fossem sinónimos. Não são.

No more mr. Nice Guy

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Depois de semanas de lindas garantias de que o alvo não era o Líbano nem as suas gentes, o exército israelita já fez saber que as infra-estruturas civis daquele país vão agora ser atacadas sem dó nem piedade.
Para quê? Boa pergunta; sobretudo para o israelita Uzi Benziman que encontra paralelos entre a situação presente e o final da Guerra do Yom Kippur, quando o Tsahal ignorou o cessar-fogo aceite por Israel e prolongou uma ofensiva contra o 3.º Exército egípcio. Também então se jogou tudo por tudo numa intensificação final da ofensiva, para que a situação congelada pelo cessar-fogo fosse o mais favorável possível. Para nada, afinal.
Hoje, andam no ar algumas perguntas difíceis: e se Israel não alcança nada de palpável, mesmo depois de causar danos tremendos a toda a nação libanesa? E se o Hezbollah consegue chegar ao fim deste conflito sem sofrer uma derrota clara, mantendo a capacidade de alvejar Israel de dentro do Líbano? Numa zona do mundo onde enfrentar Israel é a melhor prova de coragem cívica que alguém pode ter no currículo, imaginam a popularidade que estes fanáticos xiitas irão conquistar? Sobretudo depois de um ataque em larga escala, patentemente injustificado, contra o Líbano?

agosto 05, 2006

Violência

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Estranho. Ver como, mesmo na vida mais organizada e ronceira, a violência pode irromper a qualquer momento. Falo da violência física, aquele assunto de punhos esfolados e testas sangrentas, de gestos brutos, inopinados, vindos sabe-se lá de onde. É estranho ver como uma coisa tão feia pode ter um efeito tão revigorante, tão luminoso e redentor. Sabermos que, quando é mesmo preciso, conseguimos atirar-nos para o centro da fogueira, mergulhando de cabeça no caos que mais tememos, nas chamas que sempre evitámos. Estranhos caminhos que seguimos para nos reconciliarmos com o mundo. E connosco.

agosto 04, 2006

(Re)Criatividade alada

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Todos já ouvimos falar na polémica em torno do anúncio do Ministério da Administração Interna e da Galp, onde é traçado um paralelismo entre as crianças mortas nas nossas estradas e a queda de um simbólico avião carregado de petizes. A TAP reclama, António Costa mantém-se firme, etc.
Falta o melhor.
Graças a um comentário neste blogue, cheguei ao site da World Swim For Malaria, onde jaz um irmão gémeo da mais recente obra-prima da publicidade lusa. Ele há coincidências assombrosas.

Os escudos invisíveis

Surpreendentemente, as Forças Armadas israelitas concluíram pela sua inocência no bombardeamento de Qana. A culpa terá sido do Hezbollah, que usou os residentes do prédio demolido como escudos humanos. E claro que os militares ignoravam a presença de civis ali; caso contrário nunca teriam lançado aquele ataque.
Só não percebo bem qual será o propósito de usar "escudos humanos" sem que o inimigo saiba que eles lá estão. Parece-me coisa pouco eficiente.
Isto além de se saber que as vítimas já estavam naquele prédio havia mais de duas semanas, algo que não deve ter passado despercebido aos omniscientes voos de reconhecimento israelitas. Mas enfim; por este andar, ainda vamos ter o Hezbollah a querer convencer-nos de que nem desconfiava que Haifa estava habitada.

agosto 03, 2006

Lavores femininos

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Meninas desta nação católica: desejais ter uma éfigie da veneranda Irmã Lúcia a emanar santidade sobre o vosso boudoir? E vós, impenitentes incréus, quereis ter o penetrante olhar da Vidente a velar pelos vossos desvarios, quiçá inscrito num belo tapete de WC?
Rejubilai, pois tendes sorte. O último número da revista "Linhas & Pontos" inclui um prático esquema para criar uma toalha/quadrinho/tapete com um belo retrato da alucinada de Fátima em ponto de cruz. Reparai como até a tecnologia envolvida foi bem seleccionada; se se tratasse de Maomé (longe vá o agouro, que o Jacques Rodrigues não quer manifs à porta), teria de ser ponto de crescente. Ou coisa que o valha.

Vert, la couleur de la saison

Quando às tropelias metafísicas, avarias quotidianas e noticías felinas do costume acrescem reparos à corrente noção de proporcionalidade bélica, uma excursão de Oakeshott ao bar dos "Morangos com Açúcar" e actualidades escaquísticas, o impensável acontece: um dos melhores blogues portugueses fica ainda melhor.

Terroristas pela Democracia

Alguns exilados cubanos de Miami, através da sua mais activa organização, a Fundación Nacional Cubana Americana, já andam a ver se se poupam ao incómodo de uma nova Baía dos Porcos, exortando as Forças Armadas de Cuba a aproveitar a maleita do ditador da ilha.
«Os militares têm a oportunidade de prestar um grande serviço à pátria estabelecendo um governo transitório cívico-militar que ponha fim à ditadura dos irmãos Castro»; «Os homens e mulheres cubanos podem aproveitar esta oportunidade para fazer alguma coisa por Cuba e podem contar com o apoio da Fundação Nacional Cuboamericana». Assim falou Jorge Mas Santos, presidente da FNCA.
Para os mais distraídos, impõe-se uma pequena explicação. Esta agrupamento é o mesmo a que pertencia Luis Posada Carriles, ex-agente da CIA e um dos autores do atentado bombista ao voo 455 da Cubana de Aviación, em 1976. Neste acto de terrorismo, morreram 73 pessoas. Isto sem esquecer as bombas que, em 1997, rebentaram em vários hotéis de Havana; outra obra de associados da FNCA. Apesar de comprovadamente saberem disto, as autoridades americanas continuaram por muitos anos a subsidiar a FNCA, através do National Endowment for Democracy.
Pelo que se vê, nem todo o terrorismo é coisa oriunda dos eixos do mal que por aí pululam. E alguns terroristas, como Orlando Bosch, até podem ser boas pessoas, merecedoras de acolhimento caloroso...

agosto 02, 2006

O blogger e o seu duplo: por fim o debate

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agosto 01, 2006

Mais duas vítimas da guerra: a memória e o juízo

Eduardo Pitta dá um novo passo na escalada rumo ao desvario total: "o ataque de anteontem matou 54. Mais de metade eram crianças. Quando bombistas suicidas se fazem explodir em autocarros nas cidades de Israel não vejo ninguém preocupado com a curva etária dos passageiros estraçalhados. Por que será?"
A memória e o DN garantem-nos que isto, pura e simplesmente é mentira. Por cá e por essa celerada Europa afora. Mas a realidade nunca interessou muito aos fanáticos, pois não?

PS: de acordo com as estatísticas do B’Tselem, talvez exista uma razão para as vítimas israelitas menores de idade terem menos destaque na imprensa do que as palestinianas: as primeiras foram, de 29/9/2000 a 15/7/2006, 119; as segundas 725. Mas, nos dias que correm, falar de "proporcionalidade" também é sinal de anti-semitismo, eu sei.

¿Cuba vencerá?

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Ao visitar Cuba, fiquei com o palpite que todo o regime ruiria à concretização de um de dois eventos: o fim do bloqueio americano ou a morte de Castro. A cada aproximação deste último evento, o pessoal de Miami começa a salivar, antecipando talvez uma segunda Baía dos Porcos: desta vez, um regresso em nome do mercado, dos direitos dos espoliados pela revolução castrista, do horrendo rum Bacardi.
Certo é que o sucessor de Fidel deverá, sob pena de arruinar o que de bom entretanto se ganhou por ali, introduzir firmes reformas democráticas e tratar de libertar todos os presos políticos ainda trancafiados. A alternativa poderá ser uma repetição brutal do acontecido na URSS: com a liberdade, veio a entrega da estrutura produtiva ao crime organizado, o crescimento das desigualdades, a insegurança, a fome. Em Cuba, pressente-se uma Guatemala em potência: democrática mas miserável, infestada de esquadrões da morte e outras pragas, incapaz de dar aos mais pobres uma existência minimamente digna. Basta comparar os seus índices de saúde pública com os de Cuba para ter uma noção do que os cubanos se arriscarão a perder, com uma transição selvagem. Pior ainda seria um retorno aos dias de Fulgêncio Batista, quando a ilha não passava de um entreposto e de uma colónia de férias da máfia americana; será este o Eldorado perdido dos exilados de Miami?

PS: Vem-me agora à memória uma conversa que tive em Cienfuegos com um escritor contestatário: ele garantia-me que vivia da "Fé". Só depois de algumas gargalhadas é que me explicou que se tratava da "Familia en el Exterior". Na realidade, só quem já se afastou das rotas turísticas cubanas e, por exemplo, comeu bons bifes pelo equivalente a 50 cêntimos é que tem uma boa ideia da tentação sem fim que representam os dólares do vizinho americano...

julho 31, 2006

Entre Cila e Caríbdis, sofrem os do costume

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Pacheco Pereira, logo ecoado pela coorte habitual, vem explicar-nos que o uso da palavra "massacre", a propósito do ataque a Qana, é propagandístico. Por estes dias, também ficámos a saber que mostrar cadáveres de crianças é crime, quiçá até pior do que causá-los.
A reboque, marcha um pelotão variado: dos irrelevantes crónicos aos mais articulados. Estes últimos explicam-nos que "ao contrário do Hezbollah, Israel não faz qualquer ataque deliberado a civis libaneses". Deliberado. De propósito, portanto. Já tínhamos lido coisas do mesmo jaez a propósito da morte dos observadores da Unifil, apesar dos 10 contactos que estes tiveram com as forças armadas israelitas a queixar-se da proximidade do bombardeamento — para nada. É que Israel não procura a morte de civis; apenas faz pouco para as evitar. (Imagino que a sua grande e única preocupação seja mesmo nunca bombardear nada com cidadãos americanos nas redondezas. Se um dos capacetes azuis "massacrados" fosse yankee, presume-se que a presente ofensiva já teria sido interrompida.)
E este é o ponto-chave desta guerra. Não estamos a testemunhar um conflito civilização-barbárie. É certo que de um lado temos o Islão mais extremista, fonte de obscurantismo, promotor de infindas violações dos direitos humanos, princípio motor de alguns dos movimentos e governos mais pavorosos deste mundo. Mas do outro lado não encontramos a linda e angelical democracia que muitos lobrigam em Israel. Trata-se de um país muito mais próximo de Esparta do que de Atenas; um estado que já se rege por algumas leis abertamente racistas; uma nação convicta da sua superioridade e até da sua comunhão directa com o Altíssimo; eleitores que procuram escolher os governantes mais radicais e belicosos. Só um país paralisado pelo medo e aguilhoado pela arrogância é que poderia desculpar as últimas acções das suas Forças Armadas. Claro que chegará o dia em que o arrependimento será chorado pelas ruas de Tel Aviv; mas sempre tarde demais.
Hoje, para quem defende Israel a outrance, todos os argumentos são válidos. Só haverá "massacre" quando se provar que houve intenção de massacrar, não apenas negligência criminosa; a "proporcionalidade" é uma invenção de cúmplices da Al Qaeda (como se durante anos Israel não tivesse lidado com os lançadores de foguetes a contento, com operações de tropas de elite e bombardeamentos de precisão); o ataque a edifícios cheios de civis é desculpado pelo lançamento prévio de folhetos a exortar os seus habitantes a ir viver para a estrada, a caminho de um campo de refugiados que os possa receber.
Hoje, há quem escolha criteriosamente a versão da história recente em que quer acreditar, elegendo como certa a única timeline que faz preceder o rapto de soldados do Tsahal pelo Hezbollah de um bombardeamento com foguetes a cidades israelitas; tudo para que a resposta posterior pareça mais equilibrada, suponho (1, 2, 3, 4, 5, 6, 7... é fácil encontrar pistas de que não foi assim, até em dados do min. dos Negócios Estrangeiros de Israel. Não que faça grande diferença). Mas nada há de surpreendente nisto: também andam por aí a querer convencer-nos de que esta maré de violência tem como origem a independência de Israel, em 1948, fazendo de conta que não existia já então uma tremenda bagagem de ódio, terrorismo e massacres (sem aspas) a envenenar tudo e todos por ali.
Se alguém quiser continuar a crer que se trata de um conflito entre inocentes árabes e cruéis israelitas, tudo bem. Se preferirem achar que as bombas com a estrela de David são redentoras e os foguetes são armas de terroristas sem humanidade, idem. Mas creio que já está na hora de abrirmos os olhos para os monstros que se digladiam hoje no Médio Oriente. E vermos que a único partido que urge tomar é o dos inocentes apanhados de permeio.

julho 28, 2006

Uma morte, duas vidas

Ontem, ao ler de relance a capa do "24 Horas", descobri que morrera, vitimada por um "cancro galopante", uma "estrela dos Malucos do Riso". Horas depois, no "Público", descubro que falecera uma grande actriz e fundadora da Cornucópia, Raquel Maria. "Azar dos diabos", reflecti, "perdemos duas actrizes num só dia".
Só ao cair da noite é que percebi que se tratava, afinal, da mesmíssima pessoa.
Quantas biografias caberão no espaço de uma vida? Muitas, de prestarmos atenção aos dias de Lorenzo da Ponte; eu, para mim, já me contentava com uma. Mas está difícil.

julho 27, 2006

Mistério

Porque será que, entre os homens de bom senso e os fanáticos histéricos, são sempre os últimos que obtêm poder?

julho 26, 2006

Como seria se Vasco Graça Moura tivesse um gémeo de esquerda?

«Os direitistas são todos umas bestas que salivam ante a perspectiva de verem mais uma família palestiniana em pedaços. Apoiam Israel só porque o seu mestre, Bush II, assim comanda. Para eles, se um palestiniano reclama pelas horas que passa todos os dias em check-points israelitas, é por certo um terrorista em potência, candidato a evisceração imediata e sem piedade.
O pessoal de direita finge ignorar que o estado israelita foi fundado em massacres como o de Deir Yassin e numa limpeza étnica que ainda hoje mantém centenas de milhares longe das suas terras. Essa malta nojenta vira a cara para não ter de encarar as criminosas acções dos sionistas e dos seus lacaios ao longo dos tempos. Para eles, tudo o que vem de Israel é bom, pelo simples facto de se tratar de uma democracia, mesmo que a sua organização faça lembrar bastante mais Esparta do que Atenas. Ou talvez seja apenas porque é assim que os círculos do pedantismo bem pensante vêem o mundo, entre fumaças de Cohibas e mais uma citação de Oakeshott sacada à pressa da Internet.
A cada edifício civil destruído em Beirute, abrem mais uma garrafa de caro champagne; a cada ambulância pulverizada, gritam novos "vivas" ao poderio angélico e sempre esclarecido do Tsahal.
Se alguém ousa levantar a grimpa, é por certo um pós-soviético, um anti-semita do piorio e um anti-americano com posters de Bin Laden e do WTC destruído a encimar um pequeno santuário dedicado a Estaline.
Claro que não tenho de provar nenhum destes vómitos disfarçados de prosa. Sou poeta e os poetas vivem acima de pormenores como a inteligência, a verosimilhança e o equilíbrio.»

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Das três, duas

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A- Israel bombardeou por acidente o posto da ONU em Khiyam, provando asssim que a ideia é mesmo demolir às cegas, numa lógica de destruição e massacre generalizados, tendo já desistido de identificar os tais "bastiões" do Hezbollah.
B- Israel bombardeou propositadamente o posto da ONU em Khiyam, enviando mais uma poderosa mensagem ao mundo: "eis a consideração que nos merecem as vossas tentativas de interferência e os vossos observadores".
C- Existe uma grande falta de falantes de Inglês nas forças armadas israelitas, pois o bombardeamento ao bunker da Unifil durou horas, tendo os observadores telefonado ao oficial de ligação israelita após a queda de cada uma das 10 primeiras bombas. A seguinte foi fatal.

julho 25, 2006

Mais um "anti-semita larvar", desta vez em Israel

Tenho pena de não dispor de tempo para traduzir este artigo de Ze'ev Maoz, professor na Universidade de Tel Aviv. Mas fico feliz por ver que muita gente em Israel ainda não sucumbiu à idiotice do dogma da superioridade moral israelita. Um dia, teremos por cá malta assim.
Recomendo-vos a visita ao "Haaretz" e deixo-vos com duas passagens: «On July 28, 1989, we kidnapped Sheikh Obeid, and on May 12, 1994, we kidnapped Mustafa Dirani, who had captured Ron Arad. Israel held these two people and another 20-odd Lebanese detainees without trial, as "negotiating chips." That which is permissible to us is, of course, forbidden to Hezbollah.»; «What exactly is the difference between launching Katyushas into civilian population centers in Israel and the Israel Air Force bombing population centers in south Beirut, Tyre, Sidon and Tripoli? The IDF has fired thousands of shells into south Lebanon villages, alleging that Hezbollah men are concealed among the civilian population. Approximately 25 Israeli civilians have been killed as a result of Katyusha missiles to date. The number of dead in Lebanon, the vast majority comprised of civilians who have nothing to do with Hezbollah, is more than 300.» Bravo.

War fever

No "Da Literatura", Eduardo Pitta prossegue a sua laboriosa campanha contra o anti-semitismo que, de olho clínico em riste, vislumbra a medrar por todo o lado. Esse insidioso vírus cresce pela calada em malta que finge ignorar as atrocidades que Putin vai ordenando na Tchetchénia; prospera em gente, como Eduardo Lourenço, que nada terá dito a propósito do genocídio do Ruanda ou dos primeiros ataques da UPA em Angola (!); floresce, por fim, na néscia manada que ignora olimpicamente a crueldade do blitz alemão sobre Londres e da invasão de Berlim pelos russos (a sério: o homem escreveu mesmo isto).
Tudo para atingir um corolário quase admirável: «argumentar com a soi disant "desproporcionalidade" não deixa de ser uma infantilidade. Insistir nessa tecla é uma forma naïf de dizer o indizível. Podiam assumir de uma vez por todas o anti-semitismo larvar.» Porquê? Não se explica. Mas entende-se: como desde há anos, o número de acusações de anti-semitismo em circulação num dado momento continua a ser um excelente barómetro do comportamento do Estado de Israel.
Noutras paragens, há quem imagine, de espírito dilacerado, uma horda de bandidos sanguinolentos acoitados em Espanha e dedicados a martirizar os pobres portugueses. Nesse caso, «teria ou não o Exército Português direito a internar-se em território espanhol, dar caça aos bandidos e eliminar redutos, arsenais, paióis e instalações utilizadas pelos terroristas?» E logo vem a conclusão triunfante: «Ora, é o que o exército de Israel está a fazer no Líbano. É o direito à resposta, o direito à retaliação; em suma, uma guerra justa.» Quer dizer que as pontes demolidas, os bairros residenciais arrasados, as populações sem água, as ameaças de represálias bárbaras, as carrinhas cheias de civis alvejadas do ar, etc... nada passa de uma sinistra montagem anti-semita: trata-se sim de uma mera questão de paióis e outros "redutos", tudo tão bem camuflado. (Já agora, respondendo a este senhor, existe um tratado entre Portugal e Espanha a permitir perseguições transfronteiriças, desde que com conta, peso e medida, como é de esperar de nações civilizadas e democráticas. )
Que um colunista prestigiado como Akiva Eldar tenha perguntado «será possível que um estadista sábio mude a sua doutrina por causa de um bando de lançadores de foguetes? (...) Ainda não aprendemos que, na relação entre nós e os nossos vizinhos, a força é o problema, não a solução?» é pormenor de somenos para os cultores do simplismo; que mesmo organizações de direitos humanos israelitas acusem o seu exército de usar civis como escudos (coisa que só os malandros do Hezbollah fazem, como todos sabemos) é-lhes indiferente. Israel tem sempre razão, Israel é sempre moralmente superior, Israel tem o direito divino de esmagar tudo e todos e quem disto duvidar é parvo, anti-semita ou as duas coisas em simultâneo.
O pior é que a tontice revela-se mal contagioso. O infantil arremedo de raciocínio acima descrito foi destacado no Insurgente como "Uma pergunta para os amigos dos terroristas"; estes serão, suponho, malta como Eduardo Lourenço ou qualquer outro mânfio que não se tenha manifestado em tempo certo contra os ataques da UPA. A inteligência, como sempre, é a primeira vítima da guerra.

julho 24, 2006

Same old story

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Não é de todo difícil confirmar a minha antipatia de estimação com a Clara Ferreira Alves. Mas até um relógio parado dá as horas precisas duas vezes ao dia. E a hora da "Pluma Caprichosa" quase chegou no passado dia 8 de Julho. Quase; ou, como Graham Greene bem poderia ter dito, "close, but no cigar".
A nervosa cronista foi desta vez irritada por um documentário sobre Portugal que a CNN resolveu emitir, a propósito da deslumbrante carreira lusa no mundial do chuto na bola. E com razão, se a coisa foi como ela a descreve: "uma charrete, um homem de colete e bota alentejana a tocar um cavalo, uns homens e mulheres rodopiando o vira, ou o corridinho, ou o que quer que seja e seja folclórico, mais o chouriço assado e a taberna, o lenço vermelho e a taroca, o boné e a festa popular." Os espectadores da CNN terão assim ficado "com uma ideia de Portugal que nos coloca, exactamente, no tempo de Salazar mas... a cores."
Até aqui, tudo mal. Mas a Pluma descarrila quando chega a altura de encontrar causas para a miopia do documentário. Saca de um preconceito para explicar outro: é americano, só pode ser ignorante. Assim: "O problema da CNN e da sua abordagem em ângulo fechado é o problema típico do império americano no século XXI, ignorância e falta de curiosidade à mistura com ingenuidade e arrogância."
Será que já ninguém se recorda de uma pérola cinéfila de nome "Lisbon Story", realizada por Wim Wenders, produzida com ajuda do omnipresente Paulo Branco e paga com dinheiro da Lisboa 94? O que ali se via de Lisboa poderia ter sido filmado bem antes de Salazar: eléctricos decrépitos, terraços sobre bairros de má nota, tralha derrelicta a cair pelos cantos. Com menos de 50 anos, só alguns prédios que teimaram em intrometer-se nos enquadramentos artísticos da obra. Como banda sonora, o neo-faduncho suburbano-depressivo dos Madredeus. Não foi preciso, naquela instância, encomendar a vinda de americanos para nos encontrarmos de tal forma retratados: um país melancólico, pobre, velho e infeliz.
Talvez não seja só má vontade de quem quer pintar frescos às três pancadas com a pobre pátria tuga como modelo. Talvez sejamos mesmo assim. Se pensamos em Espanha, imaginamos flamenco, largadas de touros, tomatinas, arquitectura arrojada, progresso, gente colorida em busca da praça e das tapas mais próximas. De Portugal, entrevemos lampejos de tascas escuras onde se geme o fado, destinos tuberculosos, saudade a escorrer a sua peçonha por calçadas às ondas.
Imagino que a CNN e Wim Wenders se tenham esforçado bastante para encontrar pontos de vista simpáticos sobre esta doença crónica disfarçada de país. Não é obra fácil.

Onde é que já vimos isto?

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Israel ameaça destruir 10 edifícios libaneses por cada novo ataque de foguetes.
Há uns anos, duas aldeias checas foram arrasadas como represália por um outro ataque. Mudam-se os tempos, permanecem as vontades de mais sangue.
O que vale é que os jornalistas lusos encontraram um lenitivo para mais este degrau na descida rumo à barbárie: os edifícios assim condenados estão, ao que parece, em "bastiões do Hezbollah". É por certo uma espécie de "efeito Helena Matos": se morreu, devia ser terrorista. Mesmo que, por exemplo, apenas tivesse cometido o crime de viajar de carrinha; hoje em dia, tal basta para atrair a fúria justiceira da "única democracia da zona".

julho 14, 2006

Abre-se mais uma frente na Guerra de Religiões?

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O Vaticano condenou os ataques de Israel ao Líbano.

julho 04, 2006

Sem olhos em Gaza

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No Knesset, já há quem peça a "obliteração" de Gaza. Enquanto estes extremistas não passam a maioria, toda a população da Faixa de Gaza vai sendo castigada pelas acções de outros fanáticos. E a vida de milhões permanece sequestrada pelos que julgam só poder contentar os seus usando a violência à mínima oportunidade.
O soldado raptado continua longe de casa; entretanto, seu exército persiste nos raids contra a "infra-estrutura civil do Hamas"; incluindo orfanatos e lojas de brinquedos.
Aos homens de bom-senso, pouco mais resta que continuar a fazer propostas já desesperadas que ninguém ouvirá. E actualizar a contabilidade mais funesta.

junho 30, 2006

Good things come to those who wait

Se acreditam neste lema, cliquem aqui e esperem uns minutos para ver uma pequena maravilha da publicidade.

junho 29, 2006

Decomposição artística

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A peça de Damien Hirst que há pouco se aproximou do recorde de preço para obras de um artista vivo está a apodrecer. O tubarão que habita The physical impossibility of death in the mind of someone living, encomendada em 91 pelo publicitário Charles Saatchi, apresenta claros sinais de decomposição. Pouco atraído pela perspectiva de poder ver o espectáculo de 9 milhões de euros a desfazer-se na sua sala de estar, o infeliz proprietário está a tratar, com o artista, de substituir o inquilino da precária obra por um espécimen mais resistente.

Abrir os olhos

Aos poucos, começamos a perceber melhor o que se está a passar em Timor. Mesmo que muitos prefiram continuar a olhar para outro lado qualquer.

Como é simples o mundo de quem vive entre estereótipos...

Luciano Amaral continua a partilhar connosco a sua singela visão do Mundo. Para ele, qualquer um que não partilhe a sua sageza, além de por certo pertencer à Esquerda, essa infame turba, é um néscio incapaz de largar «o keffieh (sabem, é o lenço palestiniano) e a boina do Che, para além dos cartazes habituais: "Bush=Hitler", "Bush Go Home", "Terrorista Mundial n.º 1", "Assassino em Massa" e restantes mimos da ordem»; um dos «guevaristas e racistas» que poluem as ruas europeias a cada visita de George Bush.
Este intelecto ponderoso explica-nos hoje que antes de se fechar a vergonha de Guantánamo será «preciso saber o que fazer com aqueles 500 prisioneiros, que ninguém quer propriamente ver por aí à solta.» Ou seja, mesmo sem julgamentos, culpa formada ou grande informação sobre eles, o bom do Luciano já os sabe armados com os chifres do demo. E, para a sua mente iluminada, haveria uma saída bem desejável: «porque não deixar a Europa tratar do assunto?» Mas claro: os EUA que os detenham e sujeitem sabe lá Deus a quê, em flagrante fuga a todas as disposições legais americanas e internacionais; agora, o mais lógico seria a Europa tomar conta da ocorrência e limpar o lixo. Claro.
A teoria geral deste colunista é que mais vale fazer qualquer coisa, mesmo que às cegas e à bruta, do que investir em maltosa como a da ONU, ineficaz no «Ruanda, no Congo, no Darfur ou em Timor.» Como se estivéssemos na presença de dois blocos antagónicos e mutuamente exclusivos: os EUA e as Nações Unidas. Como se os primeiros não fizessem também parte dos problemas (e das parcas soluções) da ONU.
A derradeira frase deste texto é uma definição lapidar deste pequeno mundo a preto-e-branco: «É fácil e sempre dispensa de se pensar e fazer qualquer coisa.»

PS: nem de propósito. Hoje mesmo, o Supremo Tribunal dos Estados Unidos tratou de demonstrar qual será o caminho para Guantánamo: a sujeição às leis americanas e às garantias constitucionais, escapando aos inflacionados e auto-atribuídos superpoderes de Bush II.

"Raptados pelas emoções"

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Os jornais israelitas e de todo o mundo continuam a encher-se com os passos frenéticos da última corrida para o abismo no Médio Oriente: agora, é a Síria a visada, com caças israelitas a sobrevoar o presidente Assad. Em Gaza já não há electricidade e várias pontes foram bombardeadas pelos aviões israelitas. Até onde irá chegar mais esta escalada insana, ninguém pode calcular.
Mas ainda se fazem ouvir por ali ouvir mais do que gritos de guerra e pedidos de sangue. E talvez ainda haja tempo para que alguém repare na justeza deste texto do colunista Akiva Eldar; ali são relembradas palavras de um antigo vice-primeiro ministro de Israel, há pouco mais de um ano: "estamos cansados de lutar, estamos cansados de ganhar, estamos cansados de derrotar os nossos inimigos. Queremos ser capazes de viver com relações totalmente diferentes com os nossos inimigos. Queremos que eles sejam nossos amigos, nossos parceiros, nossos vizinhos".
Agora, esse antigo "vice" já é primeiro ministro e tratou de esquecer a promessa de bom senso e o cansaço do sangue: "todos na Autoridade Palestiniana estão entre os responsáveis e nós não lhes daremos qualquer imunidade"; "o mundo está farto dos palestinianos. Até agora, as nossas respostas têm sido comedidas. Isso acabou."
O que acabou mesmo foi a promessa de acalmia na zona. Emboscada por extremistas, executada pelos mísseis de outros extremistas. E claro que não é por acaso que o ataque aos soldados israelitas que serviu de pretexto para a presente crise aconteceu justamente quando se discutia o "Documento dos Prisioneiros" (que aliás já fora recusado pelos mais radicais).
Como bem pergunta Eldar: "será possível que um estadista sábio mude a sua doutrina por causa de um bando de lançadores de foguetes? Será imaginável que um líder esqueça a sua visão por causa de um falhanço militar que custou as preciosas vidas de dois soldados e a captura do seu colega? Ainda não aprendemos que, na relação entre nós e os nossos vizinhos, a força é o problema, não a solução?"
A resposta, infelizmente, é uma só: quando os violentos se sentem com poder para esmagar os seus vizinhos, tratarão de o fazer à mínima oportunidade. Quer sejam loucos a enviar os filhos dos outros para o martírio ou estadistas que já souberam anunciar sonhos de paz quando tal lhes convinha. Todos se deixam raptar pela febre da guerra com gosto. E ai de quem seja apanhado no meio.

junho 28, 2006

Crítica, tomates e outros inchaços

Desta vez, Augusto Manuel Seabra colocou o dedo na ferida. E ousou ofender, imaginem, a vaca sagrada EPC. Sei que o "Público" está offline para não-pagantes, mas o Google dá uma ajuda (não digam a ninguém como, por favor).
E ainda há uma pungente nota de rodapé neste drama em que a expressão "débil mental" aparentemente chegou mesmo às impressoras: a mini-polémica com a "Bomba Inteligente". Se querem uma actualização da história da rã que inchou sem mesura porque se achava fadada a boi, não percam estas pérolas: «o parágrafo de Augusto M. Seabra nada mais é do que um exemplo de cobardia (…) O que Seabra não percebe é a qualidade de leitura nos blogues, nomeadamente de alguns, como é o caso deste», «Quanto ao comentário de desconhecer se sou Bomba, poupe-me a essa conversa pobre de blogue anónimo com três visitas diárias». Como exemplo de solipsimo blogosférico incapaz de sonhar que existe alguém sem um blogroll sempre à mão, é difícil imaginar melhor.
Polémicas menores à parte, foi para mim agradável constatar que o bom Augusto M. Seabra os tem bem no sítio. E nós temos homem.

Bolhinhas e racismo

O rapper e produtor Jay-Z lançou há dias uma cruzada contra o champagne Cristal. O motivo? O presidente da casa produtora teria afirmado que a elevação do seu produto à categoria de ícone do hip-hop era "atenção indesejada". Jay-Z reagiu ao ultraje berrando "racismo!" e apelando ao boicote: "I view his comments as racist and will no longer support any of his products through any of my various brands, including the 40/40 Club, nor in my personal life".
Que ninguém gostaria de se ver associado à cultura "bling-bling", com a sua hedionda acumulação de seios extravasantes, veludos foleiros, Rolls Royces cor-de-rosa e jóias a rodos, parece-me evidente. Que tal seria verdade mesmo se a malta em questão fosse composta por metaleiros loirinhos do Alabama também tem ar de coisa óbvia. E o pior vem quando se lê que a expressão "unwanted attention" nem sequer foi proferida pelo gestor da casa Roederer. Mas o boicote continua de vento em popa. Já devemos ter chegado à silly season.
Ah, é verdade: cada garrafita de Cristal custava, nos bares de Jay-Z, entre 450 e 600 dólares.

O seu a sua dona (2)

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Pronto. Através dos diligentes ofícios do Google, já descobri quem é, afinal, a benemérita Nossa Senhora de Caravaggio. Fica feita a correcção e depositado o pedido de algumas graças suplementares para sábado (e, já agora, se pudesse fazer qualquer coisinha pelo Darfur, a malta também agradecia).

junho 27, 2006

O seu a sua dona

Anda por aí meio mundo a tentar escolher a Grande Figura do jogo com a Holanda e poucos procuram no lugar certo. Não falo do árbitro que arruinou o que poderia ser um jogo excelente, nem da inenarrável cabeçada de Figo, nem na falta de desportivismo exibida nas fitas, no teatro e no anti-jogo descarado (não que tenha sido a nossa equipa a única a pecar).
Segundo opiniões abalizadas, é sim hora de entregar os louros devidos à Nossa Senhora de Caravaggio. Já o li em vários sítios. Deve ser verdade.
Mas fico sem perceber como é que a pobre senhora, com o fraco ar que ostenta, pode ter ajudado no que quer que fosse. Não percebo mesmo grande coisa de futebol.

junho 22, 2006

Para onde quer que vá, o bravo português leva consigo as suas atiladas competências técnicas (2)

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Atrás de uma notícia do Público, segui para o Luxemburgo, onde o mundial de futebol está a dar que falar entre a nossa comunidade emigrante, e não só pelo desempenho da nossa selecção. Em dois jornais luxemburgueses, apareceu gente muito incomodada com a omnipresença de bandeiras portuguesas — por vezes com o tamanho "de lençóis" — nas ruas e janelas do Luxemburgo. Isto para nem mencionar as turbas apinhadas em carros igualmente enfeiados pelos nossos trapos verde-rubros e as hordas de ébrios cambaleantes mas vitoriosos. Ainda para mais, este pessoal desrespeita uma lei que impõe a presença do estandarte luxemburguês a acompanhar bandeiras alienígenas.
Claro que um comportamento intolerável deste jaez só podia vir de gente mal integrada e quase sub-humana. E a culpa nem é do pobre desporto: "O futebol devia ser pura felicidade. Temos de recusar deixar que ele se transforme num elemento de segregacionista". É que esta maltosa só se civilizará "Quando eles estiverem realmente integrados no nosso país, quando os seus televisores não ficarem perpetuamente ligados à RTPi". Claro que não tardou até surgir uma boa alma a recordar a taxa de insucesso escolar "horrivelmente elevada dos estrangeiros". Tudo no meio de acusações de "patriotismo malsão" e de "chauvinismo", prontamente contra-atacadas por denúncias de racismo e xenofobia.
É linda a forma como o desporto une os povos.

junho 21, 2006

Para onde quer que vá, o bravo português leva consigo as suas atiladas competências técnicas

Na Alemanha, foram presos dois portugueses quando roubavam a carteira... de um polícia à paisana.

junho 19, 2006

Lepidópteros de Verão

Dois dos mais notórios trânsfugas do Aspirina B mancomunaram-se com mais uns quantos elementos de má nota. O resultado só vai durar 60 dias, dizem eles. Assim sendo, o Caderno de Verão é apenas o feio (que fizeram vocês ao pobre template?) casulo de onde vai em breve emergir uma linda e original borboleta. Eu já lá fui deixar alguns comentários insultuosos; por que esperam vocês?

Falta de auto-estima? Aonde?

O "Record" de ontem resumia a nossa vitória contra o Irão com qualquer coisa no estilo de "Até já damos baile!" Isto depois de um jogo medíocre contra um adversário que patentemente não tinha ideia do que fazer quando se via com a bola nos pés. Falando de uma vitória que se solidificou com um penalty ingénuo cometido segundos depois de uma jogada em que só a inépcia terminal de um avançado iraniano evitou o empate.
Hoje, na TSF, ouvi o moderador da famosa "Bancada Central" entrevistar um comerciante turco, adepto do Sporting (!), colocando as suas questões num Inglês macarrónico. A fechar a peça, o jornalista não resistiu a comentar com condescendência o "Inglês deficiente" do entrevistado.
Fico sem saber se estes episódios autistas são um sintoma de doença colectiva ou apenas tontice banal. Não esqueçam que é a esta malta da imprensa que cabe dar voz ao sentir da alma lusa, amplificar as nossas idiossincrasias e dar antena aos estados de espírito que nos vão dominando. O que explica muita coisa.

junho 14, 2006

Vender saúde

Os bons frades fabricam e vendem o milagreiro tónico: uma mistura de aloé vera com mel e sabe lá Deus mais o quê. Eles não são avaros na promessa: a tal planta — que hoje em dia já infestou detergentes para a roupa, cosméticos, iogurtes, sabonetes, etc. — parece ter "poderes curativos" capazes de erradicar o cancro, pelo menos numa "grande percentagem de casos".
Passei por lá em plena hora de ponta. Casais, velhos sozinhos, jovens de olhar furtivo; um corrupio de gente a sair dali com as preciosas garrafas. Quase todos corriam, sabe-se lá contra que adversários temíveis. Todos agarravam os seus sacos de plástico com ambas as mãos. Estão agora, mais do que nunca, lembrados de como a esperança é frágil.

junho 13, 2006

"Vista" com banda sonora

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Robert Fripp, o enorme compositor e guitarrista por detrás dos King Crimson e de milhentas outras coisas louváveis, gravou há pouco alguns temas que em breve estarão na sua secretária: o ambiente sonoro do novo sistema operativo da Microsoft, o "Windows Vista". Assim, é certo que aquele terá pelo menos uma característica aproveitável que não foi copiada dos Macintosh. Aqui, podem encontrar um fascinante documentário sobre a excursão de Fripp ao "campus" de Redmond.

Já nem a Holanda é o que era?

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Uma visita de 15 dias, há um ror de anos, e algumas conversas com o nosso Fernando Venâncio deixaram-me com uma excelente impressão da Holanda e dos holandeses. Malta afável, cosmopolita, comunicativa e hospitaleira. Assim uma espécie de portugueses, mas em bom (e sem fado, para melhorar as coisas).
Ontem, ao almoçar com um amigo que também é por lá professor, chegou a desilusão. Descobri que também os holandeses têm a sua "bible belt"; áreas pejadas de gente que se agarra ao Santo Livro em busca de instruções detalhadas para cada aspecto da sua vida quotidiana. Uma região sobretudo rural, onde até poderemos topar, segundo este meu amigo, sinais no meio dos campos relembrando aos passantes que por ali é proibido praguejar.
Proibido; isso mesmo. Vilas existem na Holanda que aprovaram regulamentos a interditar o uso de objurgações com linguagem menos apropriada e, claro está, a invocação a destempo do nome do Senhor. Mas um criminoso apanhado em flagrante com a boca suja só será multado se se provar que não estava a exercer o seu direito de expressão, garantido pela constituição. Presumo que ninguém tenha sido multado até hoje...
Quem quiser importar este salutar tendência, fica aqui com o contacto do que parece (não entendo mais que duas ou três palavras em todo o site) ser uma associação dedicada à limpeza da oralidade dos cidadãos holandeses.

junho 09, 2006

O "Choque Tecnológico", versão de 1878

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Em Setembro de 1878, estreava-se a iluminação pública em Portugal, decorando a festa de anos do Príncipe D. Carlos. Meses depois, Sua Majestade oferecia ao Município de Lisboa os 6 inovadores candeeiros que importara de Paris. O Chiado iluminava assim as suas noites escuras quase ao mesmo tempo que a imperial Londres, com as novíssimas "velas Jablochkoff"; lâmpadas de arco voltaico com eléctrodos de carbono, alimentadas a corrente alterna.
Então como hoje, os senhores responsáveis esperavam que a invocação do santo nome de uma ou duas Entidades Modernas pudesse transformar de fio a pavio este triste pedaço de pântano disfarçado de país. Agora, são as miríficas "Tecnologias da Informação"; na altura, foi a Iluminação Pública.
A chegada do sumptuoso e bem-amado Progresso foi aplaudida da seguinte forma, por pena que não consigo identificar, em versos publicados no DN de 2 de Novembro do mesmo ano:

"Agora, sim, povo amado, / Que já tens um regabofe, / Vindo à noite no Chiado/ Ver a luz do Jablochkoff; / Luz, muita luz, luz imensa, / É da ventura o princípio, / Em ti, por fim alguém pensa, / Já tem luz o município./ Vai esconder-se o morcego,/ Vai sumir-se a trefa coruja, / Dos canos espero cedo/ Ver fugir a rata suja; / A luz descerá aos antros / Para as trevas dissipar,/ Dos pobres secando os prantos, / Nas covas sem luz, sem ar. / Lysia vai ter novas molas,/ Vão rasgar-se os boulevards, / Abrir-se asylos, escolas,/ Passeios, largos, bazares;/ Vai haver docas no Tejo, / Museus de estudo e recreio, / De gosos vasto cortejo, / Praças com repuxo ao meio; / Vai começar nova era,/ Vai surgir um tempo novo, / E há no bem que nele impera / Casas baratas p'ra o povo. / Até um homem escuro/ Disse com o ar mais franco : / - Esta luz traz bom futuro / Porque faz do preto branco. / E as românticas donzelas / Dizem amantes invalidas, / Com a luz parecem mais belas / Porque se mostram mais pálidas. / Gosa pois, ò povo amado, / Gosa o grátis regabofe, / vinde pasmar no Chiado/ Ante a luz do Jablochkoff."

Como se vê, pouco mudámos em 128 anos. Continuamos nas mãos de autoridades convictas de que basta oferecer uns pós mágicos de Progresso ao indígena para que maravilhas mil aconteçam, sem a maçada de tratar primeiro do essencial. E já então atingíamos a excelência... no escárnio corrosivo.
Algo se salva desta história: a "vela" de Paul Jablochkoff veio a sofrer um melhoramento crucial quando a sua substituição se tornou automática, dispensando a intervenção contínua de serventes armados de escadotes. Foi um professor do liceu de Santarém, João Rodrigues Ribeiro, o inventor do decisivo "acendedor automático".
De qualquer forma, a experiência do Chiado foi de curta vida: assustada pelos custos de manutenção do sistema, a Câmara Municipal logo tratou de o desligar.
Este desenlace parece-vos familiar?

junho 01, 2006

Acima de nós, só Deus

É daquelas palavras na moda, que acabam por irritar pela profusão desnecessária, eu sei. Mas quem ouviu as declarações do bastonário da Ordem dos Médicos à TSF, a propósito da coima atribuída pela Autoridade da Concorrência, ficou a conhecer o verdadeiro significado de "pesporrência".
A pesada penalização surgiu a propósito de uma prática aparentemente normal aos olhos do Dr. Pedro Nunes: tabelar preços dos actos médicos. O valente bastonário, julgando talvez que vive na Itália corporativista de Mussolini, "não reconhece qualquer competência para sequer interpelar a Ordem" à AdC, e não lhe "passa pela cabeça" que aquela "tenha o atrevimento" de a multar. Mesmo prometendo recorrer aos tribunais, a Ordem sabe já que "não pagará a multa jamais". Pior ainda: o homem declara-se "estupefacto pela AdC se ter lembrado de emitir um comunicado público, quando a Ordem tinha requerido expressamente para que não houvesse comunicado público." Isto apesar de a AdC a tanto ser obrigada por lei... mas essas minudências não se aplicam aos assuntos da classe médica, pois não? Claro que o Sr. Dr. não acabou a sua prédica corporativista sem agitar o álibi do costume: eles andam a "pôr interesses de doentes em causa".
Em resumo: a Ordem sabe-se totalmente imune a qualquer espécie de fiscalização da sua actividade. Voga centenas de metros acima do atoleiro onde labutam as criaturas comuns e nunca se rebaixará a pagar uma multa. Tem uma legitimidade que a coloca num pedestal fora do alcance dos reles órgãos fiscalizadores que emanam dos poderes eleitos.

A ministra e a comissão das bexigas

A ministra da Cultura, Isabel Pires de Lima, pode não ter grande experiência política. Mas aprende depressa. Hoje, deu provas de já dominar duas complexas artes do ramo: dar uma no cravo e outra na ferradura e colocar-se de cócoras ante os Grandes Vultos.
José Saramago resolveu apoucar a actividade de uma comissão de honra dedicada ao estímulo à leitura, de que até faz parte. «Não vale a pena o voluntarismo, é inútil, ler sempre foi e sempre será coisa de uma minoria. Não vamos exigir a todo o mundo a paixão pela leitura». A ministra, confrontada com estas pícaras declarações de Saramago, "estranhou". Mas não tratou de lhe sugerir de imediato a saída de um organismo a que ele admite só pertencer por uma «fatalidade, como as bexigas». Quando lhe perguntaram se o escritor deveria sair da tal comissão, a senhora ministra soltou um grito de alma: «Meu Deus! Nada disso!»
Deve ter imaginado, num momento de susto, a sua carreira governamental num jazigo ao lado da de Sousa Lara. Temos política.

maio 31, 2006

Quando pensarem mal dos nossos deputados, lembrem-se disto...

Segundo o noticiário da Rede Record de ontem, o Congresso Brasileiro anda ocupadíssimo com incidentes processuais, inquéritos parlamentares, cassações de mandatos, o "mensalão" e, agora, a aproximação do Mundial de Futebol. Resultado: há 68 dias que por ali não é votado um projecto de lei. Nem um só.
Não deixo de sonhar com o grande país que o Brasil poderia hoje ser. Se ao menos tivesse sido descoberto por malta mais capaz e organizada.

maio 30, 2006

Trabalho infantil? Ah, ah, ah!

Eu sei que o maradona é muito giro, que fica bem a qualquer um achar-lhe imensa pilhéria e postular que anda por ali sabedoria a rodos. Mas alguém devia ter dito ao homem que os bobos têm um campo de acção algo limitado: cabriolas para animar jantares dos amigos cultos e pouco mais.
Como é que alguém se lembra de escrever e assinar isto: «a maior parte das crianças que cairiam no grupo que definimos como alvo do "trabalho infantil" estão melhor a trabalhar para as Multinacionais (ui, ui) que a """""""beneficiar""""""" das condições que lhes (Portugal) proporcionamos»?
Amanhã, seguindo pela mesma viela, poderemos até garantir que os africanos estariam bastante mais confortáveis algemados a segadeiras na Europa do que a passar fome no Chade...
Apresenta-nos assim o maradona uma versão refrescada do velho chavão das crianças-do-terceiro-mundo-que-ainda-bem-que-trabalham-senão-andavam-a-prostituir-se. Aliás, este lugar comum também assoma à sua leve pena: "ou seja: antes putas que eu imaginar-me responsável aos olhos dos meus amigos do Bairro Alto por uma menina de nove anos estragar a vista e a infancia a montar relógios numa fábrica em Rayong." Todos sabemos bem que os boicotes abrutalhados podem ter consequências terríveis; só que a alternativa não é por certo aceitar alegremente que cada vez mais crianças cresçam sem infância. Mas ficamos assim a saber que ainda há quem julgue aceitável que uma empresa maximize os seus lucros oferecendo — em Rayong, por exemplo — ordenados infantis, poupando-se ao esforço financeiro de pagar salários a adultos, mesmo os prescritos pelos padrões tailandeses! Tudo para que os investidores recebam mais uns cêntimos por acção ao fim do ano e nós possamos ter pochettes mais em conta.
Não me vou pôr a adivinhar se o maradona alguma vez amou uma criança ou não. Sei é que só um coração impermeável admite um tal pesadelo e ainda é capaz de o decorar com chistes supostamente espertalhões.

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maio 29, 2006

Silencioso em Auschwitz

Bento XVI esteve em Auschwitz. Talvez tocado pelo local, o papa lembrou-se de ecoar a pergunta que vem ao cérebro de qualquer ateu sempre que confrontado com mais uma malfeitoria do espírito humano ou colossal desgraça dos elementos: se Deus existe mesmo, porque não mexe uma palha para evitar estas catástrofes?
"Porquê Senhor Permanecestes calado? Como Pudestes tolerar tudo isto? Onde estava Deus nesses dias? Porque permaneceu em silêncio? Como permitiu Ele esta matança extrema, este triunfo do mal?" Não são lamentos de cristão interesseiro e pouco iluminado em assuntos da Fé; são palavras do chefe da Igreja Católica.
Estranha queixa esta, vinda de quem vem. Toda a teologia cristã pode ser vista como um labiríntico emaranhado de biombos destinados a ocultar a inacção e o silêncio de Deus. Quando Ele age, os Seus caminhos são insondáveis; quando fica quedo, trata-se por certo de um Mistério, coisa não destinada ao nosso ínfimo entendimento. Há sempre forma de dar ao vazio a aparência de grande ponderação e suprema bondade.
E até para ter permitido as matanças insanas dos nazis Nosso Senhor deve ter um boa desculpa na manga. Claro que ele tinha a agenda muito preenchida; é que ser uma divindade suprema, ainda por cima tripartida, não é pêra doce. Por exemplo, nos dias em que Hitler cimentava a sua liderança do partido nacional-socialista, no início de 1926, Deus estava ocupadíssimo com missão de extrema importância: aparecer à irmã Lúcia e reclamar dos maus tratos que andamos a dar à senhora Sua Mãe. Afinal, dar a conhecer à Humanidade que "são cinco as espécies de ofensas e blasfémias proferidas contra o Imaculado Coração de Maria" só pode ser demanda prioritária, a exigir acção pronta e excursão prolongada do Menino Jesus, himself, a Pontevedra. Como poderia Deus, ao mesmo tempo, lembrar-se de cortar a carreira a Adolf Hitler, antes que o nazismo desse no que deu? Omnipresente mas não tanto, caramba...

Uma fábula com música

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Por mais desmentidos, desmontagens e desmascaramentos que apareçam, o Priorado do Sião continua a dar que falar, escrever e facturar. Por mim, já desisti de tentar compreender os fanáticos destas imposturices divertidas mas pegajosas.
Li há uns dias a lista de Grandes-Mestres do dito Priorado. De Leonardo a Cocteau, passando por Newton, é um verdadeiro dream team de supostos conspiradores. Incluindo, para lá de muitas figuras de cuja capacidade organizativa não duvido, o meu compositor predilecto: Claude Debussy. Sim; o Debussy incapaz de gerir a sua vida financeira, os seus prazos, as suas mulheres. Este homem tão desprovido de sentido prático teria sido, de 1885 a 1918, um dos vultos ocultos que governaram o mundo sem que de tal déssemos conta. Pois, pois.

A diáspora acetilsalicílica

Antecipando até a liberalização das farmácias, alguns dos nossos bem-amados colegas do Aspirina andam por aí a fazer pela vida, e bem.
O João Pedro da Costa dá alma, verbo e graça ao "blogue canino" do Brand New, conhecido programa de novidades musicais. O Daniel Oliveira voltou à cena do crime com o seu Arrastão: provocação, sarcasmo e análise inteligente nas doses do costume.
Claro que toda a gente já sabe disto tudo há um ror de tempo. O que ainda não sabem é o que os nossos ex-sócios António Figueira e Nuno Ramos de Almeida andam a preparar, com alguns cúmplices de ocasião... Na altura certa (e não com meses de atraso como agora) darei novidades.

maio 28, 2006

Meteorologia

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Que bela noite. Perfeita para o fim do mundo. Uma noite quente, de céu claro, com milhões em quintais recém-regados, apontando telescópios para astros que nunca despontarão. Uma noite abafada, húmida, em que tudo nos parece justo, correcto, no sítio mais próprio. O calor que denuncia a iminência das grandes catástrofes geológicas. A calmaria que sugere o fim de todas as tribulações. Que bela noite.

maio 25, 2006

A aldeia global entrou em órbita

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Há dois meses, um astrónomo amador, entusiasmado com o Google Earth, decidiu usá-lo para procurar crateras de meteoritos ainda desconhecidas. Ou seja: munido de uma ferramenta ao alcance de todos, Emilio González teve a ousadia de se imaginar capaz de encontrar estruturas geológicas ignotas. Fenómenos com dezenas de quilómetros que tivessem escapado aos argutos olhares de incontáveis especialistas, debruçados sobre fotografias colhidas por enxames de satélites. E, em meia hora, fez precisamente isso. Descobriu, algures na fronteira entre o Chade e a Líbia, uma cratera em que ainda ninguém tinha reparado.
Que dizer quando a informação que qualquer um de nós tem na secretária pode conter o mapa para descobertas científicas? A infosfera tornou-se num símile tão perfeito do nosso mundo que já serve de território de pesquisa, laboratório que até dispensa de todo o contacto directo com a realidade.
Disse González, com uma candura reveladora: "é um pouco como um jogo de vídeo. Só que é real". Mas ainda existirá mesmo essa linha de fronteira, assim tão clara, ou será que ela se está a desfocar e a afastar de nós a cada dia que passa?

Pontos de vista

"Pontualmente, gosto do humor do Nuno Markl", diz-me uma amiga. Fico a esperar que ela goste é dos pontos finais. Sobretudo daqueles que marcam mesmo o fim da coisa.

Dois caminhos para provar a mesma coisa

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maio 24, 2006

Sob o signo da incubadora (2)

Carrilho será uma osga insuportável. Talvez. Será um mitómano que coloca tudo e todos em causa, menos a sua própria presciência. Terá perdido a campanha contra um adversário fraquíssimo sobretudo por incapacidade absoluta de gerir e protagonizar uma campanha eleitoral agreste. Por certo. E ter-se-á lembrado agora de congeminar o seu regresso com este pequeno "Manual do Ressabiado" movido por dois impulsos irresistíveis: atirar as culpas para cima do resto do mundo e apontar à sua nada modesta pessoa os holofotes da ribalta mediática, nem que seja por mais um minutito apenas. Claro como água.
Mas há que convir que nem todas as suas queixas são infundadas. Ele não é um doppelganger do Santana Lopes dos murros na incubadora, das gaffes diárias, da necidade crónica e militante. Houve de facto alguma má vontade em torno da sua campanha. Se suscitada por embirração com a personalidade difícil de Carrilho ou por maquinações sombrias, como ele defende, é agora indiferente. Mas dão-lhe alguma razão, por exemplo, os que o vaiaram por usar o seu filho no vídeo de lançamento da campanha e depois aplaudiram quando Cavaco Silva exibiu os netinhos.

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maio 22, 2006

O jogo da censura

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Os intelectuais hardcore andam felizes. O mundo tem destas coisas: de quando em vez, mais ou menos ao ritmo das aparições do cometa Halley, alguém presta atenção às querelas esotéricas e às escaramuças bizantinas de artistas, críticos e outros profissionais da cultura. Aí, é chegado o momento de celebrar.
Agora, é o affaire Handke/Milosevic. Para quem anda mais distraído, aqui fica um resumo da coisa: Peter Handke, escritor de ascendência parcialmente eslovena, é desde há anos uma das vozes incómodas que recusa o encerramento do dossier das guerras da Jugoslávia com o simplista veredicto da culpa exclusiva dos sérvios e de Milosevic. Para piorar tudo, lembrou-se de aparecer no funeral do bode-expiatório/ditador sanguinário (riscar o que não interessa), com um elogio fúnebre na algibeira.
Reacção: Marcel Bozonnet, director da Comédie-Française tratou de "desprogramar" uma peça de Handke, "O Jogo das Perguntas ou Viagem à Terra Sonora", obra que nada tem a ver com a Jugoslávia. Logo estalou a polémica, com abaixo-assinados, insultos, barricadas e intelectuais que se imolam pelo fogo (bem; ainda não chegámos a tanto, mas é capaz de não tardar). Como peixes famintos de atenção que por fim são presenteados com umas migalhitas, também cá as hostes se abespinham e se erguem de verbo fácil e inflamado em riste. Por exemplo, no último número do "Mil Folhas", Augusto M. Seabra e Jorge Silva Melo quase fazem eco um do outro, embora com algumas dissonâncias interessantes, mormente a propósito de uma espécie de abaixo-assinado do director do Centre dramatique national d'Orléans, Olivier Py. Silva Melo nessa prosa "um texto dilacerante" (será mesmo elogio?); por seu lado, Seabra exorciza o "indescritível manifesto" que ali lê.

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maio 21, 2006

Angiogénese

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Naquele dia, deixou-se fascinar por veias. Veias e artérias. Pensou e admirou o seu crescimento, a forma ordeira como se espalhavam em silêncio por dentro do seu corpo. Pequenos rios de sangue a crescer de acordo com as leis escondidas de uma orografia espantosa; alimentando continentes, levando cheias sem aviso a terras sequiosas. A cada segundo, mais um milímetro de tubagem era construído com precisão e sem fadiga. Quem convencera o seu próprio organismo a alimentar assim o pequeno invasor? E onde estaria o projecto de uma tal empreitada? Como poderia, logo desde o início, aquela mão-cheia de células ambiciosas comandar um prodígio assim?
E não era apenas a logística com que as linhas de abastecimento acompanhavam a invasão; todo seu corpo se rendia a um sem fim de exigências famintas, cedendo nutrientes, calor, protecção. Um instinto maternal à escala celular, colaborando com a inflação desenfreada dos tecidos?
Ela conformara-se desde o início. Sabia bem que esse era o caminho da Natureza. Aquela vida dentro de si só existia porque podia contar com uma hospedeira prestimosa. E apenas conhecia um ditame: crescer. Crescer sempre, mesmo que à custa de tudo o que a rodeava.

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maio 19, 2006

Cancro Pequeno

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Quando pessoas de bom senso e sensibilidade se vêem do mesmo lado da barricada que malta da extrema-direita, algo de estranho aconteceu. Neste caso, aconteceu mais uma entronização das touradas no renovado altar do grunhismo nacional. Mesmo a tempo de prolongar esse êxtase do lusitanismo obscurantista que são as cerimónias da Cova da Iria e fazendo já a ponte para mais uma gloriosa jornada de patriotismo descartável a propósito do futebol.
Quando alguém aplaude como espectáculo uma encenação em torno da agonia de um animal, está a desistir de muitas das coisas que nos tornam humanos. Será folclórico, será do agrado dos turistas, será cultura... mas é por certo um momento de júbilo para o que há de mais negro nas nossas almas.

maio 18, 2006

Ainda o grande derby Couves x Alforrecas

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Em princípio, a estrambótica providência cautelar contra o livro do JP George terá destino daqui a pouco mais de uma hora. Não se aceitam apostas; espera-se sim que o bom senso prevaleça. Até lá, vai prevalecendo a promoção ao lançamento da Objecto Cardíaco e ao autor.
Não sei porquê, mas não consigo deixar de pensar que o título desta pequena maldade, "Couves e Alforrecas", caía que nem uma luva no recente ajuste-de-contas-em-forma-de-livro de MM Carrilho.

maio 16, 2006

A Guerra em close-up

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Como fazer uma série de televisão sobre uma operação militar que envolveu centenas de milhares de soldados, sem dispor de grandes meios? Como mergulhar no inferno, sem gruas, hordas de extras, meses de pós-produção? Simples mas não fácil. Filma-se de perto a verdadeira matéria-prima das grandes guerras clássicas: a carne.
Eis a verdadeira vedeta da série "Dunkirk", da BBC, de que ontem voltou a ser exibido o último episódio. A carne dos soldados. Carne suja, suada, rasgada, amputada, gangrenada. Ou apenas exaurida por esforços para lá do humano. A câmara faz mais do que procurar intimidade com as suas presas. Ela aproxima-se até que a pele mais não permite. Fixa-se nos poros, num nariz sujo, num ombro destroçado, numa esfregona que limpa um convés, ensopada de sangue. A câmara recusa a imobilidade, adopta os ritmos daqueles derviches insones; gira e rodopia, bem dentro do desespero dos soldados e civis envolvidos na maior evacuação militar da história. Induz a vertigem no espectador, faz do seu movimento mais uma barreira entre o horror da guerra e a nossa tranquilidade no sofá. De quando em vez, lá surgem as imagens documentais, algumas a cores, para nos lembrar que tudo aquilo aconteceu mesmo, ainda no tempo dos nossos pais. Estranhamente, os grandes planos de multidões em fuga a custo organizada, as enormes barcaças em chamas, todas as intrusões do mundo real no tecido microscópico da narrativa de "Dunkirk" acabam por funcionar como um contraponto perturbador na sua coerência: como se a verdadeira guerra apenas conseguisse igualar, nunca ultrapassar, em "realidade", a presença palpável da carne dos actores.
E há o fantasma da sempre presente caução (bem anunciada no início de cada episódio) realista: estas histórias foram todas recolhidas de entrevistas e diários de sobreviventes. Cada nome, cada corpo, pertenceu mesmo a um ser humano. A intimidade que a câmara celebra a cada segundo não é apenas um artifício da ficção; é uma busca da realidade perdida no pó dos arquivos. Um último resgate dos heróis de Dunquerque.
E há os olhos também. Os olhos que são dos poucos sinais a distinguir cadáveres de combatentes ainda vivos. Os olhos do oficial inglês que abate um seu camarada desertor. Do ferido que só aguarda o tiro de misericórdia e recebe dos alemães um cigarro e água. Do moribundo que pestaneja sob a chuva, gota a gota, do sangue do seu companheiro de beliche. De Churchill ao ordenar que os feridos sejam deixados para trás.
"Dunkirk" é excessivo, manipulador, exibicionista, quase demagógico. Por tudo isso, é uma grande obra de televisão.

maio 10, 2006

O Quinto Império vai ter olhos azuis

O que vai ser de Portugal? A economia esboroa-se. O optimismo foi fazer companhia aos dodós no paraíso das criaturas alérgicas à realidade. Os analistas mais lúcidos só concordam num ponto: ninguém sabe porque é que esta nação porfia na acédia e derrapa na ineficiência desde há séculos. As "elites" empresariais rabiam à caça de culpados, nunca se lembrando de procurar no cotão dos seus umbigos forrados a Maludas. Os pessimistas passam dias a gemer o luto antecipado pelo finis patriae. E a realidade teima em dar-lhes razão: a cada ano, lá somos ultrapassados por mais um recém-chegado à europeia fraternidade. Até já se estimou a data em que daremos connosco a segurar com cotos decrépitos a lanterna vermelha desse pelotão imparável: 2050.
Se Portugal fosse um animal, a extinção seria destino certo e merecido. Mais uma experiência falhada, mais um projecto simpático mas inviável. Um dia, Portugal acordaria vazio. Assim sem mais menos. E, como a geopolítica e a demografia têm horror ao vácuo, logo outras populações viriam reclamar tanta riqueza imobiliária devoluta. Construindo cidades vibrantes onde hoje estiolam praças desertas; empresas inovadoras em vez dos estaminés que agora se limitam a dar "empregos", não trabalho; multidões alegres em lugar das sorumbáticas turbas portuguesas.
A única coisa que nos poderia salvar? Uma mutação inopinada que nos ofertasse novas qualidades, que nos trasnmutasse em criaturas plenas de energia, inteligência e instinto. Impossível, desconfia o bom-senso. Infelizmente, acrescenta o mesmo.
Mas... e se esta mutação já estiver mesmo em curso?

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Uma tristeza de blogue

O El Pais criou um blogue para que as vítimas da presumível fraude da Afinsa possam expor o seu caso. Este esquema piramidal parece ter sugado as poupanças a mais de 100.000 pessoas.
Tinha de ser um português a inventar este esquema; o nosso génio só se dá bem com a trafulhice.

maio 06, 2006

Eu sou o outro

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Há décadas que a minha vida é assombrada por um duplo. Tudo começou quando um fulano bem apessoado me cumprimentou em plena rua de Cascais, bramindo o seu espanto com o quanto eu engordara, perguntando-me se “continuava ir ao rugby” e despedindo-se com sentidos votos de felicidades para uma “esposa” que eu nem tinha à altura. Escusado será dizer que nunca antes vira tal criatura.
Depois, foi o abraço de urso que me desferiram à má-fila num centro comercial. O simpático agressor estava deliciado por me voltar a ver, eu que tinha sido um dos poucos amigos a ir visitá-lo ao hospital e estas coisas um gajo não esquece porque antes quando estava à porta da discoteca era só palmadinhas nas costas e tu-cá-tu-lá mas depois da cena do tiroteio e da granada já ninguém o conhecia de parte alguma. A não ser eu, claro está. Que até lhe tinha emprestado dinheiro. Recusei um súbito assomo de ganância e disse-lhe para me pagar noutra altura mais propícia, depois de endireitar a vida e despistar os tais “gajos” que teimavam em apoquentá-lo.
Os encontros mais ou menos pícaros foram-se sucedendo. E nunca me passou pela cabeça desfazer o equívoco e tentar convencer aquela malta que não era eu o tipo porreiro que já não viam há uma carrada de anos. Agradava-me a ideia de manter algures uma vida secreta; tão secreta que nem eu desconfiava o que andaria a fazer (sempre era uma explicação mais agradável para o costumeiro cansaço matinal do que uma apneia do sono ou coisa que o valha).
Afinal, ter um sósia tem o seu frisson metafísico; nem é preciso ser fanático do Borges para apreciar o calafrio da identidade dúplice, a vertigem do labirinto de espelhos. Tudo isto dá uma certa gravitas à minha ronceira vida de suburbano hipertenso.
Ainda há uns meses, numa função solene em pleno Alentejo, dei com mais um destes “amigos” contrafeitos. Um tipo bastante bêbado que começou por se pendurar no meu braço a recordar episódios de batidas ao javali e uma regata que devíamos ter ganho. Depois, insinuou que a minha relação com a sua mulher tinha ar de não ser inteiramente sã e que a próxima caçada poderia incluir um acidente muito desagradável. Sendo já tarde demais para denunciar o engano, limitei-me a tartamudear um “eh pá, deixa-te lá disso” e fugi para junto da mesa dos canapés, onde meti conversa com um padre que parecia mesmo o Ricardo Araújo Pereira a fazer de padre. Sei agora que o meu alter-ego afinal é um valdevinos apostado em causar-me algum percalço. Talvez seja boa ideia cortar a barba.
Mas se calhar há por aqui eventos mais complexos do que uma simples parecença física. Uma qualquer instância arbitral destes mistérios ontológicos pode bem ter procedido a uma experiência de âmbito inescrutável, criando não um mas dois eus, dando-lhes depois circunstâncias e acasos diversos. Palpita-me que o meu doppelganger é que ficou com a vida aventurosa e divertida. A mim tocou-me o jardim sempre em estado semi-selvagem, as contas do saneamento básico, as idas ao Continente e as varizes.
Se algum dia o encontrar, sou homem para trocar de lugar com ele. Nem que seja à força.

Lá volta a cantilena do “Fidel milionário”

É coisa cíclica: volta meia volta ouvimos falar duma por certo rigorosa lista da revista Forbes que atribui a Fidel Castro uma fortuna esbugalhante. Desta vez, é-nos apresentado como sétimo líder mais rico do mundo, na formidável companhia de reis, sultões e príncipes casadoiros.
E como é apurado o valor do criminoso pecúlio do ditador cubano? Varia de ano para ano. Mas é sempre método mui científico e fiável. Antes, calculavam, para poupar trabalho, uma percentagem do PIB de Cuba e atribuíam-no a Fidel. Passados uns anos, começaram, generosamente, a dar-lhe uma fatia das receitas das empresas estatais que representam, nas palavras da insuspeita revista, «state-owned assets Castro is assumed to control».
Este ano, é tudo mais rigoroso: «we assume he has economic control over a web of state-owned companies (...) To come up with a net worth figure, we use a discounted cash flow method to value these companies and then assume a portion of that profit stream goes to Castro. To be conservative, we don’t try to estimate any past profits he may have pocketed, though we have heard rumors of large stashes in Swiss bank accounts.» Partem do princípio, assumem e até dão de barato os esbulhos passados, apesar dos credíveis rumores que andam por aí.
Que a Forbes, notória pelo seu militante anti-castrismo, persista na fábula mascarada de jornalismo, ainda vá. Bizarro é que tanta gente — da RTP a blogues respeitáveis — nem se dê ao trabalho de investigar o site da revista antes de dar eco a historietas sem qualquer fundamento visível.

maio 05, 2006

Gineceu (2)

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Aqui há uns dias, chegou de Angola uma notícia alarmante: a miss angolana, a belíssima Stiviandra Oliveira — que encima estas linhas — seria impedida de participar num concurso internacional de beleza por «ser muito clara para os gostos da maioria negra».
Tal campainha bastou para levar saliva a algumas bocas. Curiosamente, a direita civilizada e a "outra" coincidiram quase ipsis verbis numa análise: «Imagine-se a reacção dos media e dos arautos do politicamente correcto (a nível nacional e internacional) se se tratasse de um caso inverso, intitulado por exemplo "Miss Portugal é muito escura"...» teve como contraponto «Agora imagine-se que em Portugal, ou em qualquer outro país europeu, sucedia o mesmo (eleição duma negra como miss) e havia alguém a usar o argumento racial... caía o Carmo e a Trindade e a súcia anti-racista militante vinha para a rua protestar...»
A grande diferença acabou por ser que o Insurgente tratou de afixar um desmentido a atribuir as dificuldades de inscrição da jovem ao regulamento sobre as idades das concorrentes. Os "outros" ainda por lá andam a discutir a notícia inexistente.
Indesmentível é que parece crescer em Angola um clima de hostilidade para com os mestiços. Basta colocar um olho nos comentários que a eleição de Stiviandra suscitou para confirmar que, em nome do regresso a uma supostamente autêntica "negritude", muitos julgam mesmo que esta miss não deveria representar o seu país. No meio da discussão, lê-se de tudo: do bruto «Para já os latons e as latonas africanos (as) deveriam é maritar com os senegalés, puros negros. A mulher mais linda é a mulher de natureza negra e sem nenhuma melanjerias» ao elaborado «Nos, os negros Angolanos, temos que passar a valorizar a nossa cultura. Nisto, teremos mesmo que por os mulatos e brancos de lado; eles teem a sua própria agenda, que é subjugar-nos permanentemente. Vejam só a volubilidade com quem os latoes e pulas, nesse comentários, estão a celebrar a vitoria desta latona como Miss Angola! O pais é nosso, agora muitos de nos passamos a ter muito dinheiro; deixemos esses apatridas de lado».
O preconceito, por muito pensado que seja, é sempre espectáculo feio. Mas os "separatistas raciais" portugueses esmeram-se na arte: «é a primeira vez que vejo um macaco maquilhado»; «Pretos racistas contra pretos? Estarão a evoluir?»; «Os pretos são mesmo feios, como é possivel haver lá "misses"?!!»; «Pelos vistos fazes parte daquela camada que foi "socializada" - (leia-se sujeita a lavagem cerebral) e que agora acha muito giro ver uma rapariga branca acompanhada por um preto, dar à luz uma baratita...». A não esquecer: é disto que falamos quando falamos da nossa extrema-direita.

Mas vamos ao que interessa: não sei se a Stiviandra vai mesmo ser candidata ao tal título "universal". Certo é que parece ser mulher para dar "dez a zero" à desengraçada miss lusa...

Mais um esplendoroso argumento a favor da gerontocracia

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João Almeida, candidato à liderança do PP e figura de proa da moção "Fazer Futuro".

maio 03, 2006

Um módico contributo para o tento na língua

No afã de dar mais "modernidade" e "flexibilidade" ao Português, não cessam as novidades teratológicas. Depois do infame e esverdeado "glauco", que continua a sua profícua carreira por esse mundo fora, salta-me agora a atenção para o vocábulo "módico".
Mas quem se terá primeiro lembrado de martelar o pobre adjectivo até dar em substantivo? Hoje, de João Pereira Coutinho a este mesmo blogue, passando por locais mais ou menos recomendáveis e por fontes mais ou menos abruptas, poucos escapam à epidemia.
Não sei se a coisa terá raizes eruditas, no latim "modicus"; parece-me mais provável a parola importação directa do Inglês. Ao pé disto, julgo que a história do "estória" é inovação perfeitamente benigna e até louvável.

maio 01, 2006

Matéria negra

Há uns dias, conheci uma mulher a quem morreu um filho. Antes de a ver, já sabia do drama banal: o miúdo que desfalece sem aviso, o diagnóstico de tumor incurável, a tentação do suicídio, o longo e raivoso luto. Já sabia que não tivera mais filhos nem regressara por inteiro à vida; sabia que mantinha intocado o quarto da criança morta, que o seu desgosto se dava a mais uns quantos caprichos um pouco sinistros. Imaginei que todos os convivas daquele jantar tivessem também ouvido as mesmas histórias, recitadas entredentes como um segredo quase vergonhoso ou como uma fábula terrível que deixa sempre o mesmo arrepio: "e se tivesse sido eu?"
Claro que aquela mãe presa num nojo perpétuo e malsão tinha tudo para ser a atracção principal do jantar. Ainda em pé e de copo na mão, dei por mim a espreitá-la através de uma distância meio respeitosa meio medrosa. Estar face a alguém que sobrevivera a uma perda assim parecia-me coisa admirável; quase como conhecer o primeiro capitão a ultrapassar o Bojador ou trocar banalidades sobre o tempo com um astronauta reformado. Temo ter embasbacado por longos segundos, feito mirone da dor alheia. Mas não era o único. Bastou-me um pouco de atenção para reparar na lenta coreografia que animava os convivas: estes aproximavam-se da mulher, como que por casualidade, endereçando-lhe algumas palavras nos casos mais afoitos, e fugiam de seguida para a outra ponta da sala. Presos a órbitas parabólicas em redor de um astro que mal tocam: atraídos até certo ponto para logo se verem repelidos, talvez receosos de arriscar um qualquer contágio pela proximidade excessiva.

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abril 28, 2006

A náusea de ontem

Há uns dias, a Fernanda Câncio juntou a sua voz ao animado coro de reprimendas à TVI pela forma algo necrófaga como explorou a morte do jovem actor Francisco Adam: "Raras vezes se terá assistido a um tão acabado exemplo de autofagia mediática e de canibalismo sentimental".
A tese subjacente a estes lamentos é sempre a do plano inclinado em que vamos deixando escorregar os nossos valores civilizacionais — "a náusea de ontem é a normalidade de hoje". Por outras palavras, estamos pior que ontem, mas não tão mal como amanhã.
Para quem se sinta tentado a acreditar na tese e a fazer de conta que a Imprensa só agora descobriu esta fossa para chafurdar, talvez seja boa ideia relembrar o caso do bebé Lindbergh. Os fotógrafos invadiram a morgue onde jazia o caixão da criança e trataram de o abrir, em busca de fotos mais "emocionantes".
Pois. Apesar de tudo, ainda não regressámos a tais paragens.

abril 24, 2006

Votos crípticos

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O que acontece quando dois excelentes blogues se unem em matrimónio? Uma prole infinda de posts minimais?
Seja como for, o que nos importa, a nós leitores, é que as alegrias que hoje começam não vos roubem tempo para a blogação. E aqui fica um pequeno mas decorativo vasito, à laia de presente que gostaria de vos oferecer, se a penúria não fosse tão aflitiva.

abril 21, 2006

"Compramos Sucata"

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"A Cormetal, que atua a mais de 20 anos no mercado de RECICLAGEM compra para reciclar:"
Inicia-se desta forma auspiciosa e ortograficamente inovadora um mail que por aqui recebemos "a" bem pouco tempo. Gostaria de responder a estes senhores com boas novas. Mas que sucata lhes poderemos vender? Comentadores inoxidáveis? Polémicas enferrujadas mas ainda com alguns quilómetros para dar? Bloggers a precisar de recauchutagem, como este vosso criado?

abril 04, 2006

Mais três achegas para confirmar a superioridade moral da Civilização Ocidental

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1- após o final da II Guerra Mundial, os ingleses montaram os seus pequenos sucedâneos de Auschwitz, onde foram interrogados alguns suspeitos de comunismo. Tortura, privação de sono, falta de alimentação, uso de adereços surripiados à Gestapo; tudo valeu para sacar informações aos detidos.
2- no Afeganistão, local da primeira batalha da "guerra de civilizações" e país recentemente arrancado às garras do fundamentalismo, a Justiça já se distanciou das práticas bárbaras dos talibans. Agora, os corpos dos condenados só são expostos por períodos decentes e o estádio de Cabul deixou de ser palco de execuções e amputações públicas; as autoridades andam em busca de um local decente para tais espectáculos. Ah: hoje em dia, os adúlteros são, ó cúmulo do humanismo!, lapidados com "pedras mais pequenas".
3- as forças armadas dos EUA ponderaram seriamente a hipótese de assassinar civis e militares americanos só para terem à mão um bom motivo para invadir Cuba.

março 30, 2006

Um último Rodriguinho (1)

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Já nenhum êxito de Hollywood dispensa os lucros do merchandising. Agora, é o oscarizado Brokeback Mountain que dá origem a uma linha de educativos brinquedos. Começando pelo dócil cavalo Bottom, imprescindível companheiro de folguedos dos cóbois modernos.

(1) Uma pequena graça à la maniére de RMD.

Enxotar as aves necrófagas

Só um esclarecimento, não vá alguém pensar que os vampiritos do costume desta vez até acertaram uma. Não. Se não "me reconheço" (raio de chavão que fui desenterrar...) no Aspirina actual, isso nada tem de censura ao meu amigo Valupi — aqui, a dissidência é visita bem-vinda. Tem sim a ver com o predomínio esmagador de posts como este, este, este e até este.
O meu projecto inicial para este blogue passava por combinar alguma reflexão politizada com intervenções mais intimistas, centradas em objectos artísticos, ou mesmo em torno de pequenos exercícios de humor ou ficções. Quiseram as correntes da vida empurrar o Aspirina B para outro lado. Hoje, ocasiões há em que ele surge quase como porta-panfletos, como veículo para proclamações várias, sem grande hipótese de servir de catalisador para discussões que me interessem. Por sentir essa tendência, já o João Pedro da Costa nos abandonou; e tenho eu também alguma dificuldade em continuar a considerar esta a "minha" casa. O que não vai impedir a sua continuação, em busca de outros caminhos e de outros estilos.
Já agora, pela centésima e provavelmente derradeira vez: não sou "bloquista". Vai daí, e por muito que isto custe à pequenina imaginação do AAA, a minha saída não representa nenhuma "crise" no tal "bloquismo". Folgo, no entanto, em constatar que o Aspirina, apesar do "gritante vazio de ideias" e do seu "estado de degradação", continua a ser mais lido do que "O Insurgente". Isso, para quem idolatra de tal forma a presciência do "mercado", deveria encerrar importantes lições de humildade. Mas é muito mais fácil dar lições aos outros, não é, AAA?

março 28, 2006

Sinistro quem?

Só para o caso de algum leitor tomar a mudez geral dos sócios do Aspirina como uma espécie de aquiescência passiva, tenho de proclamar o seguinte: não vejo grandes vislumbre de razão ou de sentido neste post ou neste, ambos lavrados pelo meu acetilsalicílico parceiro Valupi. Nada de dramático; apenas formas divergentes de espreitar a realidade, o que nem sequer obriga à invenção de novas alternativas ao quinto postulado de Euclides.
Vejamos: primeiro, Valupi descobre-se no meio de uma sociedade embrutecida e bovina, fascinada por "ricalhaços" e "futebol", que, de todo, "não speaka marxês". De caminho, ainda estranha que os partidos de esquerda não estejam sempre no poder, como seria natural se as suas propostas fosse assim tão bondosas para os "trabalhadores". O facto de o PS até ser governo é sacudido com um fácil e mui conveniente envio deste partido para o "centro", como o provaria à saciedade o facto de ter alcançado a maioria absoluta. Ora isto representa uma confusão homérica entre centro sociológico e centro político, levando-nos de escantilhão para um lindo corolário: o PSD e o PS são, uma vez que já ambos foram maioritários, rigorosamente iguais. Passa-se que não são. Podem ser parecidos, pode o PS não ser "de esquerda" para o PCP, mas é inegável que está à esquerda do PSD, se aceitarmos que estas definições ainda retêm algum resquício de significado.
Ora o facto de a nossa sociedade não "speakar marxês" não tem de ser visto como um problema de "passar a mensagem" nem sequer como mais uma demonstração da falta que faz uma vanguarda esclarecida. Basta relembrar Marcuse para vermos como o marxismo não congelou no Jurássico e até já demonstrou, há décadas, compreender bem esta "sociedade unidimensional"(1) que agora Valupi descobriu. Pois — e atenção que esta pode ser revelação espantosa para muitos — a Esquerda não se limita a berrar os seus vómitos "anti-América" e "anti-autoridade" (semelhante uso deste chavão chega a ser cómico, em dias em que alguma direita pugna pela quase anulação do papel regulador do Estado...); também consegue pensar o mundo em que vive. Ignorá-lo é de um simplismo a toda a prova.

No post seguinte, o alvo é outro mas a caçadeira continua munida de chumbo grosso e orientada por desfocadíssima pontaria. Partir do princípio que um acervo de episódios e tendências negativas chega para definir por atacado toda uma "civilização" ou uma religião seria risível se não fosse algo sinistro.
Ora deixem-me dar uma ligeira volta ao valupiano texto, mantendo no entanto intactos todos os delicados maquinismos da sua lógica:
"O caso do presidente convertido ao fundamentalismo mais alucinado, e já antes notório por não comutar penas de morte, é uma nítida radiografia da sociologia do Ocidente. Estes evangelistas enlouquecidos são aliciadores de fanáticos, numa lógica puramente religiosa. Nos países cristãos onde não há outras fontes de informação e de formação, ou onde elas são totalmente subservientes, o sentido constrói-se coercivamente a partir das patologias instituídas como cultura religiosa. O resultado é o contínuo fluxo de carne para canhão."

Ou, em alternativa, também podia pegar no recente episódio do influente rabi que recomendou aos pais judeus que amputassem partes das bonecas das suas filhas para que estas não caíssem na categoria de "ídolos". A partir daqui, seria fácil inferir que o Judaísmo é coisa de psicopatas delirantes.

Seria grotesco e simplório, não é? Pois. I rest my case(2).

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março 20, 2006

Uma ligeira evolução

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José Manuel Fernandes afirma, no seu "Público", que, se fosse hoje, continuaria a defender a invasão do Iraque.
Num artigo intitulado "Dever e haver da invasão do Iraque", ele descobre que, apesar das mentiras, do descontrolo total e da absoluta falta de planeamento para o pós-invasão, apesar do clima de guerra civil que já se vive no Iraque, apesar dos desmandos, das torturas e das arbitrariedades; apesar do fortalecimento de todas as facções fundamentalistas no mundo árabe... apesar de tudo, valeu a pena. Isto porque se calhar estaria tudo pior se tivesse sido tomado outro caminho qualquer.
Bem, pelo menos numa coisa a situação evoluiu. O jornal de José Manuel Fernandes já não apõe aspas à palavra "invasão" neste contexto, como fazia há precisamente dois anos.

março 17, 2006

E agora? Querem ver que vamos ter de arranjar outro Forcado Exorcista aqui para o Aspirina?

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"Mas amor gay, claro"?? O RMD nunca mais foi o mesmo depois de ver o broquebáque... aquela coisa dos cóbois rotos. Oh pá, não te deixes tentar, que a nossa tranquilidade heterossexual precisa da tua firmeza marialva!

Terra chama frei Rodrigo!

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Fátima, um mito? Ná; eu usaria antes a palavra "fantochada". Desculpa lá a franqueza; mas acreditar em Fátima é coisa mais grotesca do que ler o "Código da Vinci" como se fosse um tomo de História. Ou acreditar que os americanos derrubaram o WTC acolitados por uma tribo de pequenos venusianos de maus-fígados.
Fátima nem sequer foi invenção da Igreja. O mérito pertence quase por inteiro à pequena mitómana alucinada, Lúcia dos Santos. A imaginativa criança conseguiu convencer gente adulta supostamente na posse das suas capacidades intelectuais de que tinha visto as seguintes criaturas mais ou menos mitológicas: um tal de "Anjo de Portugal", a Virgem Maria (que também fez uns cameos, lá para o fim da farsa, sob os pseudónimos de Nossa Senhora das Dores e Nossa Senhora do Carmo), o menino Jesus em diversos estágios de crescimento e até mesmo S. José. Isto sem qualquer espécie de prova, no meio de testemunhos continuamente refeitos (recordem a historieta inicial, que dava conta de uma senhora com a saia acima do joelho, por exemplo) e, muito mais importante para qualquer cristão, servindo de veículo para uma mensagem vingativa, odienta e má; a léguas da ideia de Salvação universal que Cristo nos terá deixado.
Que raio de Deus é que exigiria a uma criança que rezasse muito, sob pena de ir parar ao Inferno? A tal "Senhora" de Fátima fê-lo. Da mesma forma, não se coibiu de endereçar esta pergunta aos três "videntes": "quereis oferecer-vos a Nosso Senhor para aceitardes de boa vontade todos os sofrimentos que ELE vos quiser enviar, em reparação de tantos pecados com que se ofende a Divina Majestade, em desagravo das blasfémias e ultrajes feitos ao Imaculado Coração de Maria e para obter a conversão dos pecadores, que tantos caem no inferno?" Ao pé de coisas destas, até o teu satanismo faz boa figura... e o "Código da Vinci" parece um bem estruturado tratado de teologia.
E olha que a Igreja só embarcou no comboio de Fátima quando aquilo lhe cheirou a fonte de dinheiro e de poder. E, claro está, depois de já ter comprado grande parte dos terrenos circundantes.
Quanto à Opus Dei, antes se dedicasse ao satanismo e ao basquetebol (aquilo do encesto tinha a ver, não era?). Sempre era forma de se tornar em coisa mais divertida e menos manhosa.

março 16, 2006

Pub.

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Encontrem a Deus, mas noutro trabalho qualquer

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Todos vimos há uns dias o presidente do BCP, Paulo Teixeira Pinto, enquanto lia no teleponto a declaração das suas melhores intenções com a OPA sobre o BPI. Que era tudo amigável, que nada o movia contra ninguém, que queria era espalhar amor pelo mundo financeiro afora, jurava o senhor com o queixo quase trémulo de tanta linda intenção.
Afinal, o sucessor de Jardim Gonçalves é membro convicto da Santa Máfia, a Opus Dei; e a sua surpreendente nomeação para o cargo talvez não tenha sido alheia a esse facto. Sabemos também que tal organização tem como lema "encontrar a Deus no trabalho". Logo, ficaria mal ao sr. presidente incluir no seu trabalho operações hostis e outras manigâncias de semelhante jaez.
Dias depois, a mesmíssima santa alma confirmou que a concretização da sua OPA levará ao despedimento de 3.000 trabalhadores. "É perto desse valor", disse ele, não sei se mais uma vez acompanhado pelo seu piedoso tremor de queixo.
Admitir a intenção de chutar com 3.000 famílias para parte incerta talvez merecesse mais do que esta seca anuência, em termos de "valor". Sobretudo para quem milita numa seita que quer promover uma "vida plenamente coerente com a fé nas circunstâncias vulgares da existência humana, especialmente através da santificação do trabalho."
Mais: o sr. presidente é um dos animadores da folclórica Associação Cristã de Empresários e Gestores de Empresas, que se rege por um "Código de Ética" já entregue a Bento XVI, suponho que em cerimónia de adequada elevação espiritual. Este "Código" impõe aos signatários "o respeito e a promoção do projecto de vida dos trabalhadores".
Naturalmente, compreendo que o objectivo máximo de um gestor possa ser realizar valor para os seus accionistas, ignorando tudo o mais. Desagrada-me é o farisaísmo desta malta que nos fala em santidade, em Deus e em Ética para no fim se revelar tão gulosa (não esquecer que a administração do BCP é recordista nacional de vencimentos) e indiferente à sorte dos seus colaboradores como o mais amoral incréu.
À laia de consolação, resta-me esperar que surja mesmo uma contra-OPA do BPI e que o sr. presidente se veja recambiado para o mosteiro. Lá, poderá procurar a santificação do trabalho sem dar cabo da vida a ninguém.

março 10, 2006

Entretanto, lá para as bandas do PP...

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A caricata opereta da "banda", com todas as aparências de ter sido orquestrada por Paulo Portas, é o factóide do dia. Mas não se tratará simplesmente de uma bem urdida manobra de promoção ao grandioso concerto de hoje da já famosa "Banda da Hortaliça"?

A Blogosfera; um auto-retrato

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março 09, 2006

Motherfucker, moi?

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Bem podem andar por aí os desordeiros do costume a berrar que o Human Rights Violations Report apresentado ontem pelo Departamento de Estado americano deixa de fora um prevaricador de peso: os próprios EUA. Mas não. Nada disso; hoje em dia, os bravos yankees até são capazes de alguma autocrítica. Se procurarem o capítulo dedicado a Cuba, verão logo que o relatório descreve com minúcia a forma como os direitos humanos são trucidados em Guantánamo on a daily basis:
• denial of fair trial, particularly to political prisoners
• severe limitations on freedom of speech and press
• beatings and abuse of detainees and prisoners, including human rights activists, carried out with impunity
• extremely harsh and life-threatening prison conditions
• interference with privacy, including pervasive monitoring of private communications
• denial of peaceful assembly and association
• restrictions on freedom of movement.

Na ficha do Afeganistão também não se deve dar com qualquer menção a Bagram... E por aí fora, de continente em continente. Assim vai o auto-proclamado farol da liberdade e da decência no mundo.

fevereiro 21, 2006

Céus vazios

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Talvez consigamos adiar para nunca o susto de enfrentar uma versão humana da gripe das aves. Mas estaremos, sem de tal nos lembrarmos, a correr o risco de amanhã acordar debaixo de um céu totalmente desabitado, onde nem um pardal sobrevive?

Além da Serenella Andrade, o que há de estranho na extracção da lotaria?

Resposta: a patusca invenção das "dezenas de milhar", apensa a uma das redomas do sorteio. Apesar de a ninguém lembrar dizer "dúzias de ovo" ou "centenas de ano", a coisa anda por todo o lado: em acórdãos de tribunais, documentos de universidades, discursos presidenciais, entradas da Wikipedia, etc. E neste "etc." até cabem blogues por norma bem-falantes. Ele há epidemias bem esquisitas.